O PS acusou hoje o primeiro-ministro de andar a tratar os portugueses como se fossem "medíocres" ou "incapazes", naquilo que considerou uma estratégia para abrir caminho ao anúncio de "mais austeridade e mais cortes".
Numa declaração política no plenário da Assembleia da República de hoje, o deputado socialista José Junqueiro recuperou declarações recentes de Pedro
Passos Coelho para acusar o chefe do Executivo de "reiteradamente" falar "como se os portugueses fossem medíocres os incapazes", não cumprindo "a obrigação" de respeitar "o povo que o elegeu".
Esta semana, durante uma intervenção na cerimónia do 40.º aniversário das escolas do grupo Pedago, em cujo Instituto Superior de Ciências Educativas deu aulas, Pedro
Passos Coelho defendeu perante uma plateia de alunos e professores a necessidade de "persistência", "exigência" e "intransigência" e afirmou: "Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender".
Junqueiro lembrou a
Passos Coelho que "a sua missão é governar" e pediu-lhe para "parar de criticar os portugueses" e de "ter a humildade de reconhecer" que o caminho seguido pelo Governo "é errado". O deputado do PS socorreu-se de números do desemprego e de estimativas de desempenho do PIB para considerar que o Governo escolheu "o caminho da tragédia grega".
"Pare de se desculpar e de criticar os portugueses", disse Junqueiro, dirigindo-se a
Passos Coelho, apelando ainda a que seja "antecipada a verdade e a realidade" ao país.
"O primeiro-ministro tem de confessar que para atingir os 4,5% de défice em 2012 vai anunciar mais cortes e mais austeridade e que as poupanças daí decorrentes vão se perdidas para a recessão", afirmou o deputado.
Junqueiro acusou ainda
Passos Colho de "hipocrisia" na questão da tolerância de ponto no Carnaval, "o castigo, mais um, para fazer de conta que atua em nome da produtividade". Para o deputado do PS, se era essa a intenção do Governo, ela deveria ter sido manifestada em sede de concertação social, considerando que o Executivo desrespeitou também os parceiros sociais neste caso.
Nos pedidos de esclarecimento que se seguiram, PSD e CDS acusaram os socialistas de descontextualizarem as palavras de
Passos Coelho, na segunda-feira.
"O primeiro-ministro esteve a falar para as novas gerações que o Governo de vossa Excelência colocou em causa e pôs a pagar uma fatura pesada", afirmou o social-democrata Mendes Bota, acrescentando que
Passos Coelho se limitou a "veicular valores" de que Portugal não tem de se envergonhar.
O deputado do PSD disse que o PS deveria era apoiar os esforços que o Governo está a desenvolver para cumprir o memorando da ajuda externa, que os socialistas também assinaram e considerou a intervenção de Junqueiro, "essa sim, piegas".
O Bloco, através do deputado João Semedo, deu razão a algumas críticas apontadas por Junqueiro, mas sublinhou que o estado do país é "resultado de um memorando" que o Governo anterior, do PS, negociou e assinou, defendendo que a única solução é renegociar a dívida.
Junqueiro respondeu que hoje Portugal está "muito pior" e perguntou ao BE se "acha que valeu a pena" ter "votado no derrube do Governo" socialista, quando chumbou o último Pacto de Estabilidade e Crescimento ao lado da direita.
Pelo PCP, João Ramos, acusou o PS de se queixar que os partidos de esquerda "derrubaram" o Governo de José Sócrates, mas de nunca o Partido Socialista ter procurado "soluções de governação" com as forças políticas à esquerda, preferindo andar de "mãos dadas com a direita para viabilizar orçamentos e pactos de estabilidade".
O deputado Hélder Amaral, do CDS, disse ainda a Junqueiro que o anterior Governo "não foi derrubado", foi o primeiro-ministro "que resolveu abandonar as responsabilidades e fugir", como aliás já tinha acontecido "com outro, do pântano".



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