Novo protesto mundial e manifestações portuguesas marcadas para 5 e 26 de Novembro
Se as manifestações deste sábado provaram alguma coisa é que já não são só precários ou críticos do governo que saem à rua para protestar. O timing da apresentação de mais medidas de austeridade por Passos Coelho “provavelmente levou muita gente a decidir participar” no protesto, admite um dos organizadores, mas há mais vida para além do governo.
Até porque, como muitos participantes referiram ao longo das cerca de três horas de Assembleia Popular anteontem em Lisboa, são os cidadãos que têm de começar a tomar as rédeas da política – a tão falada “democracia participativa” que parece ter encontrado eco junto da presidente da Assembleia da República. No decorrer da primeira assembleia popular de que há memória em frente ao Parlamento – que acabou por ser mais um palanque para os descontentes exorcizarem demónios do que uma discussão entre os presentes – um funcionário do gabinete de Assunção Esteves disse aos organizadores do movimento que a presidente está “disponível para ouvir as propostas”, segundo disse ao i André Albuquerque.
O organizador abordado pelo representante da presidente garantiu que “até ao final da semana” já deverá haver um “texto escrito para ser aprovado e levado a parlamento”, mas ainda assim foi cauteloso a avaliar a disponibilidade da presidente da AR, no que diz ser uma “tentativa de acalmar os ânimos” – depois de o ponto alto de sábado ter sido uma inesperada invasão pacífica da escadaria do parlamento, vista por todos como um “momento histórico”. Alguns meios de comunicação falaram em “confrontos” entre polícia e manifestantes, o que não corresponde bem à verdade: por volta das 18h30, depois de alguém ter atirado um ovo para a escadaria vedada, três agentes fardados passaram as barreiras de protecção para identificarem a pessoa. Depois disso, aconteceu tudo muito rápido: dois homens (que Garcia Pereira disse, depois do incidente, serem polícias à paisana para “provocar”) começaram a causar distúrbios e as milhares de pessoas que se apertavam no pequeno largo aproveitaram a deixa, derrubando as grades e ocupando a escadaria. O episódio não foi violento e ficou apenas manchado por um incidente com um senhor de cerca de 50 anos que, no meio da confusão, se sentiu mal e que acabaria por ser transportado pela polícia até ao INEM.
“Reclamar as nossas vidas” - Embalados pelos movimentos internacionais que aconteceram em 900 cidades do mundo, 100 mil lisboetas (30 mil, diz o jornal espanhol “El País”) participaram na marcha de sábado que partiu do Marquês em direcção a S. Bento para protestarem contra as medidas de austeridade do governo e contra o estatuto intocável do sector financeiro. Um casal que não quis ser identificado por medo de represálias contou ao i, durante a marcha, que foi despedido por um grande banco português há pouco tempo, no que já se tornou “prática comum” nos bancos. “Há uma média de cinco despedimentos por mês, até porque eles ganham dinheiro por integrarem pessoas novas todos os meses.”
Mais à frente na caminhada, feita à custa de muito suor enquanto o sol não se punha, o senhor Ângelo chamava a atenção, armado de peças de cartão da cabeça aos pés onde se liam frases de descontentamento. O i abordou o ex-funcionário da Junta de Energia Nuclear, de 64 anos e agora reformado, que acabaria por explicar que a contestação lhe está “no código genético” e que “isto assim já não se aguenta”. Era a opinião de todos, que em uníssono gritaram “Não pagamos” do início ao fim do protesto.
Para não pagar, os cidadãos exigem uma auditoria à dívida pública, algo em que Raquel Freire e outros organizadores do Movimento 12M (outro dos grupos organizadores da manifestação) trabalham há alguns meses. “O que posso dizer, para já, é que deveremos fazer um anúncio sobre isso nos próximos cinco dias e que esperamos que antes do Natal já haja uma plataforma criada” para pôr em marcha a auditoria, disse ao i a realizadora e activista.
Terminada a assembleia popular, cerca de duas mil pessoas continuaram em debates na escadaria do Parlamento à espera da vigília marcada para a meia--noite. Pouco antes da hora marcada, a polícia começou a empurrar as pessoas sentadas na escadaria para a estrada, o que gerou alguma tensão. Um rapaz e uma rapariga foram detidos e serão presentes hoje ao Tribunal de Pequena Instrução por “resistência à autoridade”. Os restantes ficaram na estrada a cantar “Grândola Vila Morena” sob o olhar atento de Zeca Afonso, cuja imagem num cartaz ocupou a praça em frente ao Parlamento todo o dia. Ao longo da noite, várias pessoas foram desistindo e partindo, mas as dezenas que ficaram discutiram e debateram pela noite dentro. Ontem, na nova Assembleia Popular, foram discutidas as propostas aprovadas no sábado, entre elas a convocação de uma greve geral, formas de desobediência civil pacífica (que “todos possam levar a cabo no dia-a-dia para prolongar e sustentar o protesto no tempo”, explicou Albuquerque) e novas datas de manifestação. A de 26 de Novembro já é quase certa e hoje sabe-se se, à semelhança de sábado, os portugueses embarcam no novo protesto internacional marcado para 5 de Novembro.



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