Entre as histórias de quem saiu do país, há destinos improváveis: Cuba, Guiné-Conacri e Antígua e Barbuda, nas Caraíbas
Os países às vezes são lugares vazios. Isa Cardoso estava num lugar de cartaz de agência de viagens, música nas ruas e calor o ano inteiro, mas, a cada dois meses que passavam, tinha de deixar Cuba e voltar a Portugal. Um país perfeito para capa de revista nem sempre é a melhor casa. Em Havana, sem trabalho, sem dinheiro, Isa chegou a fingir-se muda para poder pagar em pesos cubanos em vez de dólares. “Já não tinha maneira de ir àqueles supermercados vocacionados para estrangeiros” onde quatro maçãs custam cinco dólares. Para resumir a experiência, nove anos depois de ter regressado em definitivo a Portugal, Isa encontra um eufemismo: “A verdade é que não sobrevivi muito bem.”
Havana, Cuba. Isa queria sair e dar uma volta e não podia: não tinha para onde ir, e muito menos como ir – os transportes quase não existem e os que existem, como os táxis, são tão caros que têm de ser partilhados. Cinema de Hollywood não existia. A música em inglês não existia. As transferências bancárias não chegavam. Os jantares eram às 17h30, porque às 20h já estava tudo fechado. “Passados dois meses já não dava para aguentar. Fiz de propósito para não renovar o visto.”
Isa tinha 24 anos e um trabalho como account numa agência de publicidade quando foi para Cuba. Não partiu para emigrar mas com “uma missão de vida”: ajudar a tratar do pai, que tinha sofrido um AVC hemorrágico, numa clínica de Havana. Alguns meses depois de os médicos portugueses terem ditado que a sua qualidade de vida seria semelhante à de um vegetal, o pai de Isa largou a cadeira de rodas e voltou a caminhar pelos seus pés para Portugal. Isa voltou com ele, mas pouco tempo depois regressou a Cuba. Tinha-se apaixonado por um cubano e voltou para “viver uma história de amor”. Em Havana casou-se pelo civil. Convenceu-o a vir para Portugal e casou-se pela Igreja. Não deu certo. Tentou uma terceira vez em Cuba, ficou grávida de gémeos. Mas mais uma vez não deu certo. Tudo acabou com uma acção litigiosa em tribunal. Há quatro anos que o pai não vê nem liga para saber dos filhos. Isa sabe que ele até está em Portugal: o acaso pô-lo à sua frente, num dia de Verão, quando estava parada num semáforo na Avenida da Liberdade. Mas ele não sabe que ela o viu. Isa volta a usar um eufemismo: Cuba representa “uma história que não correu bem”.
Guiné-Conacri Aos 30 anos, Cátia Mestre continuava a viver em casa dos pais e longe de ter condições financeiras para pagar uma casa. Licenciada em Serviço Social, trabalhava há dois anos num lar de jovens e, um dia por semana, acumulava funções na Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. Mas o salário não passava dos 660 euros, e a perspectiva de o ver aumentar não era animadora, numa profissão em que “muitos colegas ganham pouco mais de 700 euros”.
Em Dezembro recebeu uma proposta para trabalhar num projecto de intervenção comunitária ligado à área do serviço social, na Guiné-Conacri. A decisão foi quase imediata. Financeiramente nem era recusável: Cátia foi ganhar cinco vezes mais do que ganhava em Portugal, e a empresa assegura todas as despesas: casa, alimentação, transportes, viagens para Portugal e seguro de saúde. O projecto também não era recusável e trouxe o que faltava no seu dia-a- -dia profissional: entusiasmo. “Em Portugal, os projectos são pouco criativos na maioria das instituições de solidariedade social, o que torna a nossa intervenção muito limitada.”
A realidade naquele país africano está longe de ser fácil. “Aqui os números são pessoas e o choque é muito grande.” Mas em compensação “as relações humanas são saudáveis e a beleza natural é magnífica”.
Cátia já tinha tido uma tentativa de emigração frustrada para Inglaterra. Desta vez aposta que o seu futuro – pelo menos a médio prazo – passa por ali, naquele local a mais de 5 mil quilómetros de Lisboa.
Polónia Luís Monteiro emigrou duas vezes. Da primeira pensou a viagem com um ano de antecedência: tinha acabado a licenciatura e começou a trabalhar como estafeta para arranjar dinheiro rapidamente. A namorada esperava-o na Polónia e em 2004, quando já tinha dinheiro suficiente para arriscar, Luís partiu. Conseguiu trabalho como professor de Inglês numa escola de línguas, mas passados dois anos regressou a Portugal com a mulher. Dessa vez arranjou trabalho como angariador imobiliário e nem se podia queixar do ordenado: nalguns meses o salário chegava aos 3500 euros. Mas em 2008, Luís e a mulher decidiram voltar para a Polónia e apostar num trabalho por conta própria. Precisaram apenas de duas semanas para deixar o trabalho em Portugal, despedir--se dos amigos e organizar a partida.
Hoje gerem juntos uma empresa de fabrico de acessórios e outros produtos para animais, a PetDesign.Pl. E Luís garante que o que perderam em dinheiro ganharam em qualidade de vida. “Como estafeta ganhava 900 euros e trabalhava 12 horas. Como angariador imobiliário chegava a ganhar 3500 mas as horas de trabalho eram quase impossíveis de conciliar com uma família. Como professor na Polónia ganhava menos de 700 mas só trabalhava 16 horas semanais. E o trabalho por conta própria tem sempre outro sabor, mesmo quando o ordenado não é tão elevado.”
Luís adianta que, “depois de se habituar ao frio do Inverno na Polónia, tudo se aguenta”. Não está arrependido e até deixa uma dica a piscar o olho ao ministro Álvaro Santos Pereira. “Aqui ainda não se vendem pastéis de nata.”
Brasil Rui Rocheta chegou ao Brasil em Setembro de 2007, não como emigrante, mas como “expatriado de uma empresa portuguesa”: tinha 33 anos e foi seduzido por um convite que implicava um papel de gestão numa empresa de consultoria na Europa. Mas com a crise, no final de 2009 a empresa fechou portas no Brasil. Rui tinha duas opções: ou rescindia o contrato ou voltava a trabalhar na empresa em Portugal. Não chegou a precisar de escolher: recebeu uma oferta para trabalhar numa consultora norte-americana que estava a abrir operações no Brasil. Hoje é managing director dessa empresa e ganha duas vezes mais do que ganhava em Portugal. No Brasil os salários “são bastante altos comparativamente”, “o mercado de trabalho é enorme” e “há escassez de mão-de-obra qualificada”. Mas nem tudo são rosas. Rui desfaz as ilusões: “O choque cultural é grande” e os custos, principalmente em São Paulo, não ficam atrás. “O aluguer de um apartamento, as refeições, as viagens, tudo é caríssimo no Brasil.” Rui não tenciona sair neste momento, não porque esteja ultra-satisfeito, mas porque é pragmático. “Nem em Portugal nem na Europa há grandes perspectivas de melhorias neste momento.”
Antígua e Barbuda Ao início, Tatiana Vaz hesita em participar nesta reportagem porque teme que em breve seja forçada a deixar de ser emigrante. Depois de três semanas em Antígua e Barbuda, nas Caraíbas, para onde partira com uma proposta de trabalho que não avançou, o regresso a Portugal tinha os dias contados: restava sobreviver com os últimos trocos que poupara para a viagem. Mas dois dias depois tudo muda: Tatiana recebe um telefonema com uma proposta de trabalho e fica esperançada. Monetariamente a mudança ainda não compensou. “Pelo contrário”, brinca. Mas a esperança também é enorme: “As únicas quatro horas de trabalho que fiz aqui foram as mais bem pagas da minha vida”, conta por email, depois de sete horas a tentar arranjar rede. “A net nesta parte da ilha tem alturas de ócio profundo quando chove”, justifica. Nas Caraíbas é assim: até a internet tem o seu tempo, “nada é verdadeiramente urgente”.
Aos 24 anos, depois de ter passado do jornalismo para o marketing porque “o salário e as condições de trabalho eram melhores”, Tatiana “não estava satisfeita com o rumo” da sua vida profissional. O amor deu o empurrão final: apaixonou-se por alguém que estava a trabalhar em Antígua e Barbuda e começou a equacionar a hipótese de emigrar. Levou três meses a tomar a decisão. O bilhete de avião estava comprado, a família mentalizada, mas Tatiana continuava a falar da partida como uma hipótese. Até que um dia percebeu que “era um disparate” perder a oportunidade. “Se não o fizesse aos 24, provavelmente não o faria mais tarde. E além disso iria estar no sítio onde toda a gente sonha estar quando chega ao escritório de manhã: as Caraíbas.”
Tatiana aterrou no primeiro dia do ano e começou à procura de trabalhos em iates como hospedeira, “o sector com mais oportunidades nas Caraíbas”, para o qual “em geral não são precisos vistos de trabalho”: os vistos são caros e difíceis de obter. Ia orientada e com perspectivas de encontrar um trabalho rapidamente: não aconteceu. O feitio pouco caribenho também não ajudou: “Para fazermos contactos aqui temos de ser muito sociáveis e eu sou um bocado bicho do mato”, brinca. Viver em Antígua e Barbuda não é barato: um T1 custa o mesmo que um T2 pequeno em Lisboa, a comida no supermercado custa praticamente o mesmo que em Portugal. No entanto, não faltam ofertas para trabalhar em turismo ou no sector financeiro. Além disso, o rum nos bares durante a happy hour – das 16 às 18h – é mais barato que a água. E para que ninguém duvide da autenticidade das imagens, Tatiana confirma: “As Caraíbas são mesmo como aqueles anúncios do Malibu.”



Comentários