Deve haver muitos cidadãos zangados com os partidos, mesmo os da sua área ideológica
Licenciado em Sociologia, mestre em Ciências Sociais, doutor em Sociologia Política, André Freire, 50 anos, é investigador na área da Ciência e da Sociologia Políticas. Sobre estas matérias publicou vários livros e numerosos artigos em revistas nacionais e internacionais. Participa e coordena diversos projectos em Portugal e no estrangeiro sobre sistemas e comportamentos eleitorais, atitudes, elites e representação política. Dá aulas na licenciatura, no mestrado e no doutoramento de Ciência Política no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa. Dedica uma boa parte do seu tempo à investigação. Tem uma intervenção cívica regular, nomeadamente com artigos de opinião na imprensa.
Defende que a esquerda e a direita são conceitos muito variáveis no espaço e no tempo. Não pertence a nenhum partido, mas posiciona-se à esquerda em termos político-ideológicos. Enquadra-se numa esquerda mais reformista da área da social-democracia, “embora não seja um grande entusiasta da versão terceira via, sobretudo no registo anglo-saxónico, de Tony Blair e dos seus seguidores”.
A sua fidelidade vai para os seus valores, para com aquilo que pensa que estar certo. Defende que o Partido Socialista nunca foi marcadamente de esquerda, pendendo mais para o centro, mas faz, contudo, parte da família socialista e social-democrata europeia.
Nesse sentido, exemplifica com o período entre 2005 e 2009, durante o qual Portugal teve um governo de maioria absoluta do Partido Socialista, primeiro e único até agora, deste partido, na história democrática. André Freire considera que o governo socialista de José Sócrates foi um executivo centrista, por opção do líder. Era uma versão mais próxima da social-democracia à inglesa. O investigador considera que, após as eleições de 2009, Sócrates estava disponível para dialogar com quem quisesse para que fosse possível formar um governo de minoria socialista. “E ninguém quis. O mínimo que a esquerda radical (PCP e BE) devia ter feito era testar se Sócrates estava a falar a sério, dizendo ‘o nosso caderno de encargos é este’, e ver o que aconteceria. Não fizeram isso. Portanto a situação entre 2009 e 2011 foi de deterioração política. Mas não era obrigatório que assim fosse, podia ter sido de outra maneira”, refere.
Reconhece que há uma pressão internacional neoliberal “terrível”, que a Europa está de rastos com a crise da dívida. O próprio PS passou a sua última legislatura a fazer coisas ao contrário do que tinha prometido, sob a pressão dos acontecimentos. Mas, adianta, a esquerda radical tinha obrigação de tentar entender-se com o PS. Não tentou. O ano de 2011 começou com o espectro do resgate do FMI. José Sócrates resistiu ao pedido de ajuda externo e demitiu-se perante o chumbo ao PEC IV no parlamento.
Admite que o PS nunca se empenhou muito em tentar fazer pontes com os outros campos da esquerda.
Perante o cenário de austeridade actual e a presença da troika em Portugal, André Freire afirma que todos os partidos de esquerda têm as suas responsabilidades, mas que os cidadãos, que muitas vezes se queixam, depois não actuam consequentemente, não exprimem o seu desagrado.
Para Freire, os cidadãos deviam fazer mais pressão, sobretudo os de esquerda, sobre o sistema político. O próprio investigador assinou, em 2009, um abaixo- -assinado, que integrava pessoas que iam do quadrante socialista à renovação comunista (Compromisso à Esquerda). “Não surtiu grande efeito, porque ninguém se entendeu.” Porém, Freire continua a defender que o cidadão, enquadrado em movimentos, tem de exercer pressão sobre o poder. A palavra de ordem de André Freire é: “Organizem-se e façam as coisas que sentem que devem fazer.”
Esse é o primeiro passo. Se houvesse pressão social, poderiam ser criadas condições mais favoráveis para uma mudança. Sobre os sindicatos refere que se quiserem ser mais eficazes têm de ser mais imaginativos.



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