Escolas
D.R.Até quando dura esta crise? A resposta é decisiva nas escolas sem dinheiro para reparar esgotos, telhados ou janelas que deixam entrar o frio
Quem tem escolas velhas e remendadas corre o risco de poder vir a ser insultado de invejoso. É difícil espreitar para o quintal do lado e descobrir que, enquanto uns tiveram tudo, outros ficaram sem nada. É essa a angústia que sentem directores e professores das escolas que durante décadas nunca tiveram obras estruturais e olham com alguma cobiça para os edifícios reabilitados pela empresa Parque Escolar.
Espalhados de norte a sul estão os estabelecimentos de ensino que vivem de remendos e engolem os orçamentos das escolas em pequenas reparações. Telhados degradados deixam entrar chuva nas salas e corredores, canalizações deixam fugir a água, aquecimento deixa escapar calor ou instalações pequenas obrigam os alunos a ter aulas fora da escola.
Os Invernos são os piores momentos para as escolas velhas. A cada chuvada descobrem-se as doenças destes edifícios que vivem de sobressaltos – canos entupidos, torneiras avariadas, sanitas obstruídas, brechas nos tectos e paredes, pátios alagados ou curto-circuitos nos quadros eléctricos. A grande incerteza é não saber quantos Invernos vão ter de suportar até chegar a notícia de que a crise chegou ao fim e poderá finalmente haver dinheiro para avançarem com as obras e deixarem os remendos.
Sintra
A lista de reparações a fazer na Escola Básica 2+3 Dr. Rui Grácio é longa: os telhados em fibrocimento deixam entrar chuva nos pavilhões, os pilares de betão mostram as vigas de ferro constantemente cortadas para não magoar os alunos, a rede de esgotos não escoa e, sempre que chove, as crianças atravessam os pavilhões com a água pelas canelas ou então equilibram-se em cima de tijolos para não se molharem. Nas salas, não há climatização – no Inverno faz muito frio e no Verão faz muito calor. Os pavimentos exteriores estão degradados e o posto de transformação da EDP foi instalado junto a uma nasceste, onde a água é abundante. Numa escola que passa os dias a remediar, boa fatia do orçamento é engolido a arranjar tomadas, substituir vidros, desentupir canos, consertar torneiras, mudar fechaduras, há sempre qualquer obra a fazer. Ter um edifício velho para 850 alunos é uma imposição dos tempos de crise que custa a aceitar para os excluídos do plano de requalificação da Parque Escolar: “Houve escolas que tiveram tudo sem se pensar que havia outras a precisar tanto ou mais de obras.” Agora, diz a directora Isabel Casinhas, há escolas, como a sua, que usam as sobras de outras para remendar o que é difícil remendar: “Boa parte do nosso mobiliário está partido e a solução passa por aproveitar os móveis que sobraram nas secundárias requalificadas.”
Viseu
Por mais que se esforcem, há equações que nem todos os alunos da Escola Básica 2+3 Grão Vasco conseguem resolver. Quase mil crianças do 5.o ao 9.o ano têm 12 sanitas e dois intervalos durante o tempo em que estão na escola. Podem correr para serem os primeiros da fila, mas boa parte regressa às aulas com a bexiga cheia. E depois passam o tempo a interromper a aula para ir à casa de banho. De resto, os outros problemas são parecidos com os de muitas outras escolas básicas. Caixilharias podres, muitas delas nem suportam o vidro que foi substituído por placas de madeira. As janelas deixam passar o frio e o aquecimento tem de ser ligado duas vezes ao dia, com boa parte do calor a escapar pelas frechas. As paredes têm fissuras, as brechas na cobertura de fibrocimento deixam entrar água nas salas e o campo de jogos não tem luz. A maior parte do orçamento serve para imprevistos que estão sempre a acontecer. Um curto-circuito, uma fuga de gás, uma porta que caiu, uma sanita que é preciso substituir. É um esforço inútil, diz a directora Inês Campos: “É o mesmo que tapar de um lado e destapar do outro.” Toda a gente já ouviu falar da Grão Vasco, mas a directora não gosta que a escola seja apenas conhecida por estar velha e remendada: “Somos uma escola multicultural, com crianças de todos os estratos sociais, com crianças deficientes e estamos entre os primeiros nos resultados escolares.”
V. Franca de Xira
Tem sido um Outono ensopado para os 1200 alunos da Escola Básica 2+3 de Vialonga. As fissuras nos telhados deixaram entrar água nas salas, o quadro eléctrico rebentou, as crianças foram para casa e os pais já saíram à rua para refilar. Esse não é o maior drama para a directora Armandina Soares, convencida de que, em breve, a câmara e a direcção regional de educação vão tratar do assunto. Só que as últimas chuvas foram a “gota de água” que expôs o “problema de fundo”. A escola é pequena para acolher 56 turmas em 25 salas. Os primeiros a sofrer são os 16 alunos com necessidades especiais obrigados a ter um ensino especializado em salas de dois por três metros quadrados ou então na antiga papelaria sem janelas. Os segundos a sofrer são todos os outros que, por não terem mais espaço, usam o pavilhão do grupo desportivo de Vialonga para fazer educação física ou então o centro comunitário para aprender música: “Nos dias de chuva andam de um lado para o outro e chegam aqui todos molhados.” São muitos os alunos e por isso estão obrigados a ter aulas de manhã e à tarde. Por enquanto, o futuro da escola está pendurado com a suspensão das obras de requalificação e integração do ensino secundário da Parque Escolar. “Íamos ter um campo desportivo fechado, mais salas de aula, internet e alunos só com horários de manhã ou de tarde.” Iam, mas não sabem se vão...
V. Nova de Gaia
Os fundos comunitários são a única esperança para os que sabem que tão cedo não haverá dinheiro para as obras nos edifícios que estão a cair. O projecto da Escola Básica 2+3 Teixeira Lopes, em Gaia, está pronto e só resta esperar pela abertura de candidaturas ao Programa Operacional Regional do Norte. A câmara avançou com o projecto, a direcção regional de educação autorizou e Filinto Lima, o director da escola, já está a fazer planos para um futuro que por enquanto só está no papel. Doze milhões de euros – comparticipados a 60% pelos fundos comunitários – irão permitir demolir os pavilhões e construir um novo edifício. Ficará irreconhecível a escola que ao longo de 38 anos nunca teve uma intervenção de fundo. Os dias de chuva são os piores. A água não escoa transformando os pátios em lagos artificiais. Os miúdos são obrigados a ficar nas salas por não existirem coberturas no exterior da escola. Os caixilhos desfarelaram, as portas não fecham e os telhados ainda têm amianto. No Inverno, os alunos usam casacos, luvas e gorros dentro das salas e os professores trazem “mantinhas”. Tudo isso tem os dias contados. É nisso que Filinto Lima quer acreditar: “É a nossa última esperança.” Aprovado o projecto, as obras deverão começar em 2013 e os 950 alunos vão poder estrear a nova escola no ano lectivo de 2015-2016. Há que ter fé na Europa.



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