Médicos
D.R.Agências estão a recrutar mais em Portugal mas uma desistiu por culpa dos candidatos infantis
Não vêm com vagas para preencher, mas à procura de candidatos que possam ser chamados a qualquer momento para preencher lacunas em hospitais públicos, privados e instituições em França, de todas as especialidades e idades, explicou ao i Sophie Leroy, fundadora da associação, que desde 2006 já colocou 200 profissionais no estrangeiro. Foi o primeiro recrutamento em Portugal e o número de pedidos chegou a ultrapassar os 400 por dia. Além da dimensão do desemprego, a responsável diz que foi uma surpresa encontrar candidatos de idades tão diferentes: os mais velhos com 70 e 62 anos, um psiquiatra e um cirurgião. Neste regime de pré-recrutamento da ARIME, a espera média por colocação, para os candidatos que preenchem os requisitos, é de seis meses. “Ontem disse a um cliente que estávamos em Portugal e ele pediu-me que o informasse se arranjasse um ergoterapeuta”, diz Leroy.
O recrutamento de profissionais de saúde em Portugal, perante a oferta noutros países europeus e não só, não é nova mas parece estar a apertar. Numa ronda por três empresas de recrutamento na área da saúde (Best Personnel, Profco e Crl – Health Job) percebe-se que em 2011 foram colocados pelo menos 170 enfermeiros no estrangeiro e a expectativa é reforçar a actividade em 2012. Segundo dados do Nursing and Midwifery Council, a ordem britânica dos enfermeiros, no ano fiscal 2010/2011 registaram-se no Reino Unido 383 portugueses, mais 172 que no ano anterior. Desde 2008 são 712 (mais uma parteira) e Portugal é já o quarto país de onde chegam mais enfermeiros à saúde britânica, atrás da Irlanda, da Roménia e da Polónia. Já os dados do General Medical Council, o equivalente à Ordem dos Médicos, mostram que o registo de portugueses também tem aumentado: em 2011 registaram-se 64, duas vezes mais que em 2008.
A Best Personnel, com escritórios em Lisboa e no Porto, recebe seis ou sete candidatos por dia. “A maior parte são jovens acabados de formar, que lutam por um primeiro ou segundo emprego. Têm boas hipóteses de encontrar trabalho em unidades de cuidados continuados e paliativos”, explica ao i Sylwia Markiewicz. Em 2011 colocaram 140 enfermeiros no Reino Unido, na Irlanda, na França e na Bélgica e seis fisioterapeutas nos EUA, profissionais para os quais há cada vez mais vagas. Já a ProfCo enviou o ano passado 20 enfermeiros para a Arábia Saudita, que ultrapassaram com sucesso o período de teste num conjunto de hospitais onde este ano esperam colocar mais 100. Em Março vão entrevistar candidatos no Porto e em Lisboa para uma unidade saudita, adiantou ao i Ann Griffin, e esperam ainda colocar cem enfermeiros portugueses no Reino Unido.
Infantis Nem todo o feedback é bom, testemunha a CLR – Health Job. “Os candidatos portugueses, e refiro-me a enfermeiros, são mais difíceis de colocar por causa das expectativas: pensam que trabalhar no Reino Unido significa ganhar muito, no mínimo 30 mil ou 32 mil libras por ano [35 a 38 mil euros] e são exigentes nas regalias”, diz o porta-voz Alex Posada. “Quando percebem que os salários não são assim tão altos, retiram as candidaturas ou desistem do processo já numa fase adiantada. São muito complicados e por vezes infantis.” A sucessão de casos deste género levou alguns clientes a reclamar, pelo que decidiram fechar a divisão portuguesa e centrar-se só em Espanha. Em 2011 colocaram 12 enfermeiros na zona de Londres, a ganhar 25 mil libras ao ano [30 mil euros].
Sophie Leroy franze o sobrolho com o relato: “Não notámos muitas exigências salariais, talvez algumas sobre a localização.” Mas admite que o pré-recrutamento é exigente também para evitar a decepção dos clientes: “Só seleccionamos candidatos que nos dêem garantias de que vão aperfeiçoar a língua e fazer formação. Damos todo o acompanhamento mas é preciso uma grande motivação para mudar de país.”
Na sala de espera no quarto piso da Alliance Française, em Lisboa, misturam-se candidatos de todas as idades. Marisa e Sandro, namorados e técnicos de radiologia de 23 e 27 anos, vêm à procura do primeiro emprego depois de dezenas de currículos sem resposta. A emigração nunca tinha sido uma opção e o francês ainda não é famoso, mas vale tudo. M., 37 anos e especialista em medicina geral e familiar, soube do recrutamento há uma semana. Falou com o marido, psicólogo, e estão prontos para deixar o país. No centro de saúde ganha pouco mais de mil euros. Em França, a oferta para 35 horas semanais pode chegar aos 4 mil. Para J., 44 anos e também médico de família, além da actividade no hospital e numa unidade de cuidados continuados, o atractivo nem é o salário: a mulher também é médica e têm dois filhos, de dois e dez anos, que querem proteger da “precariedade”.
Mais longe, na Arábia Saudita, a enfermeira Patrícia Baptista, de 38 anos, testemunha que para quem estiver disposto a arriscar “em grande”, como ela, vale a pena. Trabalhou 13 anos no Hospital de S. João. Mudou-se para Lisboa em 2008 e conseguiu há seis meses licença sem vencimento no privado para emigrar por uns tempos até para fazer formação. Num dos hospitais oncológicos mais cotados no Médio Oriente está a ganhar o triplo, 3 mil euros. A maior dificuldade é lidar com a segregação das mulheres: têm de andar cobertas e com um lenço à mão para quando aparece a polícia religiosa. Na cantina do hospital há fila para homens, mulheres e famílias. “Às vezes distraio- -me a conversar com um colega e quando noto estão todos a olhar para mim.”



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