O ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço é o 25.º premiado com o Prémio Pessoa
O nome do prémio parece escolhido para a obra de Eduardo Lourenço. O estudo e projecção da obra de Fernando Pessoa sempre foi uma prioridade para o filósofo, que compara a distinção a “receber uma visita” do poeta. “De todos os prémios que recebi é o mais justificado, por aquilo que tenho feito e escrito e sobretudo pela atenção à obra, à figura e ao destino de [Fernando] Pessoa”, explicou, em declarações à agência Lusa.
Nas comemorações do seu 88.o aniversário, dia 23 de Maio, João Pedroso de Lima, o autor da obra “O Ensaísmo de Eduardo Lourenço”, explicou ao i que Pessoa se tornou o ponto mais original da obra de Eduardo Lourenço. “Conseguiu, desde muito cedo, perceber uma implicação filosófica na obra de Fernando Pessoa, o que veio a influenciar muitos outros pensadores.” Para Eduardo Lourenço, “nenhum assunto é desinteressante” e por isso “mantém uma constante dedicação à tarefa de pensar com os outros”, acrescentou.
O Prémio Pessoa, no valor de 60 mil euros, destina-se a reconhecer pessoas de nacionalidade portuguesa que protagonizaram uma intervenção relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica do país. Uma das razões da escolha do júri foi a recente reedição, pela Fundação Calouste Gulbenkian, da obra completa de Eduardo Lourenço, num total de 38 volumes de ensaios político-filosóficos escritos entre os anos de 1945 e 2010.
Percurso Do Colégio Militar guarda os amigos, de Coimbra o espírito universitário da época e de França a liberdade. Eduardo Lourenço nasceu em S. Pedro de Rio Seco, Almeida. A pequena aldeia da Beira Interior pedia horizontes mais alargados, que mais tarde encontrou em Coimbra, cidade escolhida para o curso de Ciências Histórico-Filosóficas, em 1946. A viver em Vence, França, desde 1965, o filósofo mantém-se atento à realidade portuguesa, com “a vantagem de ver o jogo de fora”, como os amigos costumam dizer. Lídia Jorge garante que o facto de não viver em Portugal lhe permitiu olhar para o país “através de uma lente de clarividência”. Ao i, a escritora salientou a “onda de alegria que tomou conta do país”, a propósito de um prémio que vem dar a Eduardo Lourenço “um golpe de juventude”. Para a escritora e amiga de longa data de Eduardo Lourenço, a demora na atribuição do prémio constituía já “um incómodo”. “Sendo um ícone da divulgação da obra de Fernando Pessoa, era estranho ainda não ter sido atribuído”, salientou.
Também a historiadora Irene Pimentel fala em “justiça” na atribuição do prémio. “É um intelectual fundamental em Portugal, e nesta altura, em que o país está completamente em baixo, é fundamental que oiçamos aquela voz”, disse a historiadora galardoada com o mesmo prémio em 2007.
Obra Eduardo Lourenço aproveitou a atribuição do prémio para anunciar a edição de uma nova obra. “Tempo da Música, Música do Tempo” é um livro que junta “um conjunto de textos inéditos, colhidos em fontes dispersas e pessoais do autor e seleccionados pela historiadora da arte e musicóloga Barbara Aniello”, segundo uma nota da editora Gradiva.
Condecorado em França, com a Legião de Honra, no grau de Cavaleiro, vencedor de prémios nacionais e internacionais, reconhecido em todo o mundo, o ensaísta tem, desde 2004, um prémio com o seu nome. O Centro de Estudos Ibéricos instituiu o Prémio Eduardo Lourenço, destinado a galardoar personalidades ou instituições de língua portuguesa ou espanhola, não fosse o ensaísta um defensor “de um destino comum” para Portugal e Espanha.



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