O réu bem que se pode ter inspirado nesta imagem para aprender uns cumprimentos
paulo cunha/lusaEm tribunal, o Jorge da Silva admite que fez um pirete, mas não aos agentes da PSP. Ia lá ele cumprimentar quem não conhece? O gesto obsceno, feito com os dedos, era afinal para um amigo que estaria por ali passar. Porque “é normal” cumprimentar-se assim os amigos
O réu bem que se pode ter inspirado nesta imagem para aprender uns cumprimentos
paulo cunha/lusa
O Jorge, que tem o apelido Silva, apesar de esse não ser o sobrenome nem do pai nem da mãe, é um exímio bailarino de dedos. O Jorge, que é pedreiro, mas também electricista, mas também mecânico, mas também serralheiro, que “isto está mau” e tem de se ser pau para toda a obra, torce os dedos, distorce os dedos, contorce os dedos. Tudo, porque é nos dedos (das mãos) que reside a explicação para a alhada em que se meteu e que o trouxe à sala de tribunal. Uma alhada chamada manguito aos agentes de autoridade.
“Queria insultar os agentes, era isso?”, pergunta a juíza.
“Não, passou um conhecido meu.”
“É assim que cumprimenta os seus amigos?”
“Ele ia de carro, cumprimentou-me assim e eu respondi.”
“E como é que fez?”
Jorge exemplifica com a mão esquerda: um pirete em plena sala de audiências.
“Encolheu os outros dedos, mas não era para os senhores polícias?”
“Não, não. Se eu nem os conheço porque os ia cumprimentar?”
“Então e o seu amigo conseguia vê-lo a dizer adeus dessa maneira?”
“Sim.”
“E cumprimentam-se assim??!”.
“É normal.”
“É normal??”, repete a juíza a desfazer-se em espanto e riso.
“Podia ser assim... ou assim... ou assim...”, continua o Jorge, indiferente ao sarcasmo da juíza, a explicar com os dedos as múltiplas possibilidades de um adeus camarada.
Diz a acusação que Jorge, o Silva que não nasceu de nenhum Silva, se meteu numa alhada, porque numa bela tarde de Janeiro, enquanto seguia no seu Opel, abriu o vidro e presenteou dois agentes da PSP fardados com uma imitação do Zé Povinho. Os polícias entraram no carro e foram logo atrás do Opel do Jorge, o imitador. Encontraram-no no Bairro da Horta Nova, em Carnide, com dois passageiros, que nem falaram nem piaram. Mas Jorge, ao que diz a acusação, não se conteve e acabou a insultar os agentes:
“Vocês são uns filhos da puta, vão para o caralho, andam mas é a roubar quem trabalha.”
E, pelo meio de pontapés desorientados, parece que conseguiu acertar em cheio num dedo da mão de um terceiro agente, provocando-lhe uma equimose roxa e outros palavrões complicados da medicina que não conseguimos reproduzir. Sabemos só que o agente Soares, o agredido, apareceu em tribunal 20 dias depois com uma unha que se viu negra para lá chegar.
O Jorge, acusado de resistência e coacção sobre funcionário e de injúria agravada, bem que tentou apresentar uma segunda versão dos factos, mas teve logo quatro contra ele. É que os dois agentes que receberam o pirete chamaram reforços mal chegaram ao Bairro da Horta Nova e quatro homens acabaram a tentar algemar o Jorge.
“E chamou aos agentes os nomes que estão aqui?”, retoma a juíza.
“Não tenho precisão de ter dito isso, mas se calhar, tinha sido agredido. Mandaram-me contra a viatura. Não é assim que se interpreta as pessoas.” O que Jorge queria dizer é que não é assim que se aborda, ou se intercepta as pessoas.
“Ó Sr. Jorge, o senhor é um bocadinho impulsivo e nervoso, não é?”
“Não sou assim tanto. Eles queriam algemar-me e eu não deixei.”
“O senhor é que decide se vai ser algemado ou não?”
“Eu depois no final permiti, mas é com respeito e educação. Senhora doutora, eles amandaram-me contra a viatura. Acha normal?”
“A gente já sabe que eles são uns cobardes”, continuou. E aqui a coisa piorou para o seu lado, tendo a juíza sido obrigada a lembrá-lo que não tarda estaria habilitado a ser acusado da prática de outro crime, ali mesmo na sala de audiências.
A defesa do arguido ainda tentou jogar com testemunhas abonatórias, mas se a versão da mulher, que tinha visto tudo da janela de casa, não convenceu, a do colega de biscates que teria assistido a tudo no café da esquina, ainda o descredibilizou mais. O senhor Paixão, o colega, ali está para dizer que o amigo é um tipo “normal, pacífico, bom pai e respeitador”.
“Para falar dele até podia trazer aqui a minha mãe”, adianta o Paixão. “Se ela estiver a varrer o chão ele agarra logo a vassoura e varre ele.” Muito bem, senhor Paixão, não haja dúvida de que é pelas habilidades domésticas que se mede o carácter e os gramas de nervoso miudinho de um homem.
A testemunha lá acrescenta que viu os agentes mandarem o Jorge contra o carro “como se fosse um saco de batatas”, mas de pontapés do Jorge não viu nada, porque com o ajuntamento de curiosos não lhe conseguia ver as pernas.
“O que vi também era capaz de fazer. Temos de ser humanos. Eu por acaso tive uma chatice com a polícia, vim a tribunal.”
“Mas a sua chatice não é para aqui chamada”, avisa a juíza.
“Uma pessoa com os nervos, eu também já me aconteceu..”, insiste a testemunha, que volta a ser chamada a atenção, mas ainda assim replica: “Eu até podia contar uma história que se passou comigo.”
Podia, senhor Paixão. “Mas não está aqui para contar a história da sua vida.”
O senhor Paixão baixa os braços e os olhos, de tão infeliz. Ainda não é desta que alguém vai ouvir o que tem para contar.
A juíza, perdida no diz que disse, vai ter de pensar. No Jorge, e não no senhor Paixão.


Comente este artigo