Cesária Évora, a "diva dos pés descalços", como ficou conhecida, morreu a 17 de Dezembro de 2011, aos 70 anos. Cize morreu na cidade do Mindelo, em Cabo Verde...
Cesária Évora, a "diva dos pés descalços", como ficou conhecida, morreu a 17 de Dezembro de 2011, aos 70 anos. Cize morreu na cidade do Mindelo, em Cabo Verde...
Apesar do estado delicado em que se encontrava, a morte de Cesária Évora causou, naturalmente, um choque na opinião pública pelo mundo fora. Várias são as personalidades que reagiram rapidamente à notícia, muitas por escrito, mas sempre com a mesma intenção: prestar uma homenagem à "Diva dos Pés Descalços".
Em Portugal, o secretário de Estado da Cultura foi dos primeiros a deixar uma mensagem de condolências. Escreve Francisco José Viegas: "Com o falecimento de Cesária Évora desaparece uma das vozes mais expressivas e originais da música mundial”. O secretário de Estado sublinha “a forma inigualável como Cesária cantava, transmitia as emoções e os sentimentos de uma mulher que atravessou penosas dificuldades na vida, mas que soube regressar e vingar nos palcos com uma presença marcante”.
O Presidente da República português também se manifestou. Aníbal Cavaco Silva lamentou a morte da cantora cabo-verdiana, considerando-a ser um "símbolo eloquente da música e da alma de Cabo Verde".
Em comunicado divulgado no site da Presidência da República, Cavaco Silva referiu que Cesária Évora foi uma "artista singular, que tão bem soube exprimir a cultura e a tradição musical da sua terra, muito para além das fronteiras da Língua Portuguesa".
"É com pesar que presto a minha homenagem a Cesária Évora, cujo desaparecimento deixa de luto não só a nação cabo-verdiana mas toda a comunidade da lusofonia, ao mesmo tempo que nos lega uma saudade patente na memória de quem a ouviu cantar o sentir mais profundo da música do seu país, um património que continuará a ser partilhado por todos nós", rematou Cavaco Silva.
O primeiro-ministro português também expressou hoje a sua "profunda consternação" pela morte de Cesária Évora, salientando que tanto Cabo Verde como Portugal choram o falecimento desta "excecional" interprete.
"Foi com profunda consternação que tomei conhecimento do falecimento de Cesária Évora. Dirijo antes de mais uma palavra de condolências e profundo pesar à sua família e amigos próximos, bem como ao Governo e povo cabo-verdiano", refere Pedro Passos Coelho na sua mensagem, à qual a agência Lusa teve acesso.
Segundo o primeiro-ministro português, "não é apenas Cabo Verde que chora o desaparecimento de Cesária, Portugal chora também com Cabo Verde".
A fadista Mariza, amiga de Cesária Évora, hoje falecida, disse à Lusa que a cantora cabo-verdiana “tinha alguma mágoa e tristeza por os portugueses não a terem reconhecido e uma paixão enorme e gratidão para com os franceses que a reconheceram”.
Em África, as manifestações são, claro, em catadupa. O Presidente de Cabo Verde foi dos primeiros a reagir. José Carlos Fonseca manisfestou-se quando recebeu a notícia, durante o almoço num restaurante da Cidade da Praia: "O sentimento que me invade é de profunda tristeza e de grande desolação, porque com o desaparecimento físico de Cesária Évora desaparece uma das maiores figuras da cultura cabo-verdiana, particularmente da nossa música. Diria mais, que Cesária Évora representa um pouco a noção de ser cabo-verdiano", defende.
Segundo o Presidente cabo-verdiano, Cesária Évora constituía uma "referência incontornável" da Nação cabo-verdiana.
As mensagens, em jeito de homenagem, não param de cair. Também em Cabo-Verde, Djô, o empresário de Cesária considerou a morte da sua "Cize" como uma "perda indescritível". Num curto comunicado, José da Silva (Djô), lembra o "legado artístico e humano" da artista que tinha "um encanto subtil na voz". Amigo da artista, e responsável pela carreira de Cesária Évora nos palcos mundiais, Djô recordou o percurso artístico da "Diva de Pés Descalços" desde os tempos em que cantava informalmente no Mindelo, em plenos anos 60 até ao início da carreira internacional, nos 90. "Pelo que nos deixou como legado artístico e pelo que foi como ser humano, sentimos neste momento uma indescritível perda", concluiu.
O ministro da Cultura de Cabo-Verde, Mário Lúcio, comoveu-se com a notícia. O escritor e artista, que acompanhou Cesária Évora no palco por diversas vezes, afirma: "Cesária Évora é conhecida em todo o mundo e, hoje, é o mundo que também chora connosco. Queremos enviar um abraço de conforto a todos, em todos os cantos do mundo", afirmou. Mário Lúcio acrescenta: "A cultura cabo-verdiana acaba de perder uma das suas figuras mais proeminentes. Cesária é a tradução mais universal da palavra Cabo Verde. É um momento de profunda consternação e de dor, que atravessa todos os sentimentos bons que nos deixou". O ministro sublinhou ainda que Cesária tinha uma "alma que representava" o povo cabo-verdiano.
A cantora Lura que também partilhou o palco com Cesária Évora e a quem dedicou o tema “Moda Boa”, afirmou que a cantora tornou Cabo Verde maior pela grande divulgação da música e cultura deste país: “Cesária Évora representou o reconhecimento da nossa cultura e da nossa música, a valorização de um país pequeno que se tornou ainda maior com a divulgação que ela fez por todo o mundo”, disse à Lusa, a cantora Lura.
Lura considera que “ficou um enorme lugar vazio”. “Todos nós fazemos o que temos esta paixão que é cantar, e cantar Cabo Verde, mas Cesária fê-lo de uma forma notável, e deixou um espaço enorme vazio”, disse a cantora.
Lura recordou que quando cantava com Cesária Évora se sentia “uma criancinha de três anos encantada com a Rainha ali ao lado”.
Tito Paris, foi outro dos artistas que se manifestou publicamente. O músico cabo-verdiano lamentou a morte de Cesária, companheira de palcos e de brincadeiras, salientando que a música da cantora não morre e será ouvida "até ao último dia das nossas vidas".
À Agência Lusa, Tito Paris afirmou estar "muito triste" afirmando que "o mundo da música e Cabo Verde a partir de hoje ficaram mais pobres, tal como enriqueceram no dia em que ela nasceu".
"O artista e o poeta praticamente não morrem. Desaparecem mas não morrem e nós vamos ouvir Cesária até ao fim da nossa vida, ela vai existir com as suas mornas e coladeras até ao último dia das nossas vidas", considerou.
Tito Paris recordou as "brincadeiras" de muitos anos de cumplicidade com a cantora, uma "pessoa muito bem disposta, muito porreira" que praticamente o viu nascer.
"Eu fazia-lhe cócegas, ela tinha muitas cócegas, e brincava com ela chamando-lhe 'a minha namorada', dizendo que ia casar com ela. Ela respondia-me: 'você diz isso só no meio das pessoas, quando estamos sozinhos você não diz nada disso'", recorda.
De novo em Portugal, voltar a chover mensagens de respeito. Entre elas, a do programador do Festival de Músicas do Mundo de Sines, que diz: “[Cesária Évora] é um pouco a Amália [Rodrigues] cabo-verdiana, ela é a voz e a alma da música de Cabo Verde”.
Carlos Seixas, disse que Cesária Évora foi “capaz de trazer ao mundo aquilo que é a grande cultura musical da crioulidade da cultura cabo-verdiana”.
O programador mostrou-se confiante, apesar da “perda irrecuperável, a cultura cabo-verdiana saberá reinventar-se e ultrapassar este momento de luto, tanto mais que a cena musical está muito ativa”
O responsável pelo Festival de Músicas do Mundo afirmou-se “comovido” com a notícia da morte de Cesária e referiu “a imensa pena em nunca a ter trazido" ao palco de Sines "por razões várias”.
A homenagem também chegou do secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que disse estar “certo de que as pessoas serão inspiradas por aquilo que [Cesária Évora] representou e saberão continuar esse trabalho”.
"Muita gente passou a conhecer os países de língua portuguesa, sobretudo os países africanos de língua portuguesa, pela Cesária. (…) Quantas vezes todos reclamámos ser do país da Cesária?”, realçou Domingos Simões Pereira, natural da Guiné-Bissau.Domingos Simões Pereira não estava à espera: “Foi uma grande surpresa, não estava ao corrente, acabei de me informar”, disse, lamentando a “perda irreparável” para “a lusofonia, para a CPLP, para os países de língua portuguesa, (…) para a humanidade”. E acrescenta: Agora, diz o responsável da CPLP, resta “esperar que a sua obra sobreviva e possa continuar a representar-nos pelo mundo”.
Cesária Évora morreu hoje, aos 70 anos, no hospital Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, onde se encontrava internada desde sexta-feira.
Segundo o diretor clínico do hospital, Alcides Gonçalves, a morte ocorreu por volta das 11:20, por “insuficiência cardiorrespiratória aguda e tensão cardíaca elevada”.


Comente este artigo