Em Cannes, onde participa na cimeira do G20, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que esperava da Grécia actos em vez de anúncios. "Para nós, o que conta s...
Por André Abrantes Amaral, publicado em 4 Nov 2011 - 18:41 | Actualizado há 28 semanas 5 dias
A Alemanha que venceu a Europa não foi a das armas, mas a dos comerciantes que Thomas Mann descreveu no seu livro “Os Buddenbrooks”
Em Cannes, onde participa na cimeira do G20, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que esperava da Grécia actos em vez de anúncios. "Para nós, o que conta s...
Se ainda não o fez, o leitor devia ler “Anna Karenina”, de Leão Tolstoi (Relógio d’Água), e “Os Buddenbrooks”, de Thomas Mann (D. Quixote). Os dois romances retratam bem, em pleno século xix, duas realidades europeias distintas. A Rússia e a cidade livre de Lubeck, esta antes e após a sua integração no Império Alemão, em 1871. O que encontramos nestes romances, a vida das personagens neles descritas, os seus sonhos, ambições, desejos, frustrações e sucessos, medos, angústias, derrotas e vitórias, as casas onde vivem, o modo como lidam com os seus iguais, com os criados e os camponeses, dizem muito do que foram uns e outros. Bastante do que é, hoje ainda, um país como a Rússia e outro como a Alemanha.
Enquanto no romance de Mann os Buddenbrooks detinham um negócio de importação e exportação que procuravam passar aos seus descendentes, permitindo-lhes a continuação de uma fonte de rendimento que os sustentasse e fizesse ser uma mais-valia na cidade onde viviam, na obra de Tolstoi a realidade é outra. Neste, ou são altos funcionários do Estado ou nobres de antiga linhagem, os que constituem a elite política e intelectual. Apenas um, Koysta Levin, representa a falta que Tolstoi tanto lamentava entre as elites russas: o gosto pelo trabalho com vista a ajudar os mais desfavorecidos, fazendo o que é justo. O que faltou em Tolstoi, como aliás em Dostoievski, foi juntar o gosto pelo lucro e pela realização pessoal à solidariedade. Reconhecer a necessidade de ajudar os outros como o resultado inato do sucesso, fruto desse mesmo trabalho. Para Tolstoi, um benemérito tinha de ser um santo. Um místico. Um homem sem falhas. Talvez por isso, o homem bom que era Levin fosse agricultor, mas nunca um comerciante. Já os Buddenbrooks são demasiado homens para ser santos. Veja-se o exemplo de Johann Buddenbrook, que apenas porque quer levar o sogro para casa conversa com os revoltosos de 1848 e os convence a desmobilizar. Ajuda-os. Resolve o problema que afecta a cidade, não por ser um super-homem, mas como um homem simples que procura o bem-estar da família.
O tempo foi aumentando esta confusão entre benemérito e santo. Só quem se supera consegue visar o lucro ao mesmo tempo que procura o bem. Por termos caído nessa crença do homem perfeito, grandioso e inexistente, substituímos os homens normais por instituições longínquas. A crise de hoje é também de confiança. De suspeita perante Merkel e Sarkozy, que não se portam como esperamos se comportem os líderes: de modo magnânimo e capazes de resolver, de um dia para o outro, todos os problemas, quanto mais não seja pela sua simples presença. E também porque deixámos de acreditar que com esforço as pessoas normais conseguem grande feitos, fomos vivendo numa sociedade como a descrita por Tolstoi, na qual as elites nada produzem, vivendo tranquilo quem alinha com o Estado e se encosta a ele. Tal qual os endinheirados em Anna Karenina, que pouco mais fazem que não seja preencher papelada e gerir comissões. Elites que discriminam os fracos pelas suas origens, ao contrário dos comerciantes de Lubeck, que apenas desprezam quem não trabalha. São elites como as descritas por Tolstoi, que alinharam com os erros que nos conduziram até aqui, as que estão hoje a ser postas em causa.
A linhagem dos Buddenbrooks acaba por desaparecer, mas a sua ética, o seu espírito, que era o espírito capitalista daquelas cidades livres e mercantis, que Max Weber tão bem explicou, continuou noutras famílias. Continua hoje, por muito que nos doa admiti-lo, nas economias nórdicas e holandesa, que pouco sofrem com a crise mundial que vivemos. O trabalho e o esforço compensam. O lema dos Budden-brooks, “Nunca fazer negócios durante o dia que te tirem o sono durante a noite”, mostra como o valor dado ao trabalho obriga à honestidade e como dessa honestidade surge a consciência social. Como vamos ter de mudar e estar mais atentos aos Buddenbrooks.
Advogado.
Escreve quinzenalmente ao sábado


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