carro antigo
D.RPor José Couto Nogueira, publicado em 8 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 15 semanas 2 dias
Caro Sr.
Faz um ano, um grande amigo meu que estava em dificuldades propôs vender-me o carro dele por um preço simpático, para o desenrascar. Não precisava do carro, mas fiz-lhe o favor. Devo ter andado uns mil quilómetros. Agora, um ano depois, a situação dele estabilizou e diz que quer recomprar o carro. Por mim, não me faz diferença porque, como disse, não preciso dele e foi mais por favor. Mas ele diz que me compra com um desconto em relação ao que lhe paguei, porque o carro está mais velho e eu usei-o durante um ano. Ora, eu acho que ele tem que me devolver o que lhe paguei, até ao último cêntimo. Não me quero aborrecer com ele, nem ele comigo, mas a situação está a azedar. Como seguimos a sua coluna, decidimos que a sua opinião vale. Quem tem razão?
B. P. S.
Caro Sr. S.
Boa questão, uma vez que o problema é exclusivamente ético. Não há contornos legais, nem morais, nem fraternais a levar em consideração. Há a amizade, num duplo sentido: para que serve, quando precisamos dela, e o que vale quando é colocada num conflito de interesses.
Ora bem, o Sr. S. fez um favor ao seu amigo, em termos. Se lhe quisesse fazer um favor, emprestava-lhe o dinheiro, sem juros, e deixava-o ficar com o carro. Quando muito pedia-lhe, para o caso de um de vocês falecer entretanto, um papel informal, feito à mão, a dizer “Devo tanto a B.” Quando muito.
Como nada foi acordado, presume-se que a venda era definitiva e portanto o Sr. S. comprou um veículo barato. Se o usou muito ou pouco, ninguém tem nada com isso. Podia tê-lo negociado em seguida – aliás, se o tivesse feito, não estávamos agora em palpos de aranha, não é verdade?
Se o vendesse a terceiros, possivelmente teria algum lucro. Agora, ao fim de um ano, se o Sr. S. lhe vender pelo mesmo valor também ganhou alguma coisa – o usufruto da máquina – mas perdeu outra – os juros do dinheiro que lhe emprestou. Portanto tem razão em querer receber o mesmo.
Mas espere aí, que ainda temos de ver o lado dele. O carro valerá ligeiramente menos, é verdade; mas por outro lado ele teve o dinheiro de que precisava, no momento em que fazia falta. E agora pode reaver o bem sem pagar juros, o que não é nada mau. Se fosse buscar o dinheiro a esses agiotas que aceitam os carros como garantia, pagaria altos juros. Se o hipotecasse legalmente, também. Ou seja, a repossessão do carro ia-lhe custar mais caro do que a alienação.
Resumindo:
Se o Sr. S. o vender pelo preço da compra, andou de carro um ano pelo valor dos juros que esse dinheiro renderia. É justo.
Se o seu amigo recomprar o carro pelo mesmo preço, teve o dinheiro durante um ano de graça, mas em compensação não pode usar o carro. Também é justo.
Se não se entenderem assim, resta vender o carro e dividir a diferença entre o que você lhe pagou e o que receberem – uma solução salomónica, uma vez que você recebe juros pelo dinheiro e ele recebe uma compensação por ter ficado um ano sem carro. Salomónica e estúpida, pois ficam sem o carro e, provavelmente, um sem o outro. É difícil uma amizade resistir a tal casmurrice.



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