Paulo Portas
D.R.Por Tomás Vasques, publicado em 21 Nov 2011 - 03:00 | Actualizado há 26 semanas 4 dias
A acção política, a representatividade e a soberania popular, transferiram-se para os nossos credores e para os “mercados”
Deixemos, por agora, essa Europa, a Comunitária e a Monetária, governada pela Alemanha, e afundada nas suas insuperáveis contradições e incapacidades, a desfazer-se na teia urdida pelos "mercados" à volta das dívidas soberanas, que de Atenas, Dublin e Lisboa se alastra, aos poucos, seguindo os mesmos percursos, a Roma e Madrid e aonde mais se verá. Fixemo-nos, então, dentro de portas, onde um governo eleito há meia dúzia de meses, fazendo tudo ao contrário do que prometeu em campanha eleitoral, segue impávido e sereno, de olhos vendados, o caminho traçado por Berlim – o caminho da desgraça. De pouco vale, neste momento, lembrar os fundamentos que sustentaram, por parte de quem hoje nos governa, o derrube do anterior governo ou mostrar as fotografias do actual primeiro-ministro a vender, em Assunção, no Paraguai, o computador Magalhães a mexicanos, acção semelhante foi ridicularizada há pouco mais de um ano, pela então oposição social-democrata, quando o anterior primeiro-ministro se prestou a esse malabarismo de vendedor ambulante; ou ver Paulo Portas ir a Caracas, na Venezuela, tentar vender em saldo alguns produtos nacionais, sem ter direito a dois dedos de conversa com Hugo Chávez, acção semelhante por parte de Sócrates foi igualmente vilipendiada por quem dizia, na altura, tratar-se de uma humilhação política. Nem sequer vale a pena acrescentar, na mesma linha, a recente ida de Passos Coelho a Angola. E, não estarei longe da verdade, se disser que Paulo Portas já teria ido a Tripoli, dar duas palmadinhas nas costas de Kadhafi, caso este não tivesse sido barbaramente assassinado. Estes factos ilustram bem o actual estado de coisas em Portugal, mas também numa Europa que, envergonhada, esconde debaixo do tapete a sua arrogância imperialista e anda, por todo o lado, de Brasília a Pequim, de mão estendida, a mendigar uns tostões para o Fundo de Estabilização, como se não tivesse meios de se sustentar.
Mas, à parte estas circunstâncias, o que é deveras doloroso e humilhante ver é que nem o primeiro-ministro, nem o governo, dão sinais de se incomodarem com a usurpação das suas funções, legitimadas democraticamente, pelos funcionários da troika que, periodicamente, nos fiscalizam e avaliam se o governo está a fazer o trabalho de casa, tal como nos incumbiram. É doloroso ver que quem nos governa, na realidade, já não é Passos Coelho e Vítor Gaspar, os quais ainda respondem a um parlamento eleito, mas o senhor Poul Thomsem, chefe da missão do FMI e aos seus colegas. Eles – os burocratas da troika –, nas suas conferências de imprensa e nas entrevistas à comunicação social, assumem-se sem rodeios, nem subterfúgios, como o governo de Portugal. E dizem o que os "técnicos" que os portugueses escolheram, nas eleições, devem ou não fazer, o que fizeram bem, e o que fizeram mal. A acção política, a representatividade e a soberania popular, transferiram-se para os nossos credores e para os "mercados". E ainda há quem nos diga, com ar cândido: muita sorte têm vocês de ter, ainda, como primeiro-ministro, mesmo submisso e reverente, quem elegeram. Na Grécia e na Itália, isso já não acontece. De facto, o mundo mudou e de que maneira. Desde a espiral de "loucura" do capital financeiro que nos conduziu à crise do subprime, passando pelos impostos cobrados aos cidadãos para cobrir os devaneios e salvar o sistema bancário da derrocada, até ao vampirismo dos "mercados" sobre as dívidas soberanas, algo se afirma, sobretudo na Europa: a derrocada da democracia.
PS: Esta semana há "greve geral" e estou certo que poderei utilizar todos os serviços privados, desde supermercados a oficinas de automóveis. Os funcionários públicos são, nos nossos dias, a "classe operária" do PCP, o qual irá zelar para que tudo corra dentro da "normalidade", enquanto o PS "não toma posição" sobre o assunto.
Jurista. Escreve à segunda-feira



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