Grécia
ReutersPor Pedro Braz Teixeira, publicado em 15 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 14 semanas 2 dias
A Grécia está numa espiral negativa que deverá conduzi-la à saída do euro
Se quisermos ter uma visão abrangente, teremos de reconhecer que a crise do euro se iniciou há mais de 20 anos, quando os parceiros europeus impuseram como condição para aceitar a reunificação alemã que este país prescindisse do marco alemão. A Alemanha aceitou essa exigência, mas também impôs condições, nomeadamente que nunca haveria qualquer tipo de ajuda a um país em dificuldades.
Da negociação europeia que conduziu à criação do euro surgiu todo um outro conjunto de fragilidades estruturais, além da ausência de um orçamento significativo, imposto pela Alemanha.
Para lá dos problemas estruturais, foi--se permitindo a acumulação de problemas, como os défices externos, que as regras existentes defendiam que não deveriam existir.
Permitiu-se inclusive que os estados membros fornecessem informação falsificada, como foi o caso da Grécia e também o de Portugal (em 2001).
A crise do euro no seu sentido restrito iniciou-se após as eleições legislativas na Grécia em Outubro de 2009, após as quais o novo governo do PASOK revelou a falsificação das contas públicas levada a cabo pelo anterior governo, tendo a estimativa de défice para esse ano subido inicialmente para 12,7% do PIB, posteriormente revisto para 15,8% do PIB.
É importante relembrar que a Grécia só conseguiu entrar no euro porque apresentou declarações falsas sobre as suas contas públicas e os parceiros europeus nada fizeram para impedir a repetição deste facto, o que permitiu a “surpresa” de 2009.
A partir daí a Grécia tem liderado quase sempre a crise do euro, tendo sido o primeiro país a pedir uma primeira ajuda, o primeiro a ver os seus programas de austeridade agravados, o primeiro a fazer uma restruturação da dívida (leia-se, a não honrar as suas dívidas), o primeiro a pedir um segundo pacote de ajuda.
A renegociação da dívida foi dificílima e chegar a acordo sobre uma nova assistência financeira ainda custou mais. Após uma maratona negocial em que parecia que tudo já estava resolvido, os parceiros europeus insistem que ainda falta esclarecer 325 milhões de euros de cortes. Julgo que é muito importante tomar consciência de que este montante final representa apenas 0,15% do PIB grego (de 2011). Os gregos tiveram uma dificuldade brutal em conseguir aprovar o novo pacote de austeridade e os negociadores europeus mantiveram uma inflexibilidade e uma insensibilidade totais, exigindo o cumprimento das condições impostas, sem a menor margem de manobra.
Esta dificuldade grega e esta intransigência da troika é um terrível prenúncio de catástrofe. É possível que a nova ajuda ainda chegue a tempo da amortização da dívida que deve ocorrer a 20 de Março, mas qualquer contratempo futuro pode espoletar o desastre.
Haverá novas eleições legislativas em Abril e as sondagens apresentam resultados muito preocupantes. Os partidos à esquerda dos socialistas do PASOK, que se opõem à ajuda externa, têm vindo a ganhar peso, estando perto da maioria.
Se a extrema-esquerda passasse para o poder, iniciar-se-ia um processo de albanização da Grécia, começando logo com a saída do euro. Mas estes partidos não se entendem entre si, pelo que será impossível constituírem uma coligação de governo. E se os outros partidos precisarem dos deputados dos partidos mais à esquerda para conseguirem uma maioria? Como conseguir o apoio para aplicar medidas de austeridade de partidos cujo inédito sucesso eleitoral se deve à oposição a essas mesmas medidas?
Em resumo, é altamente provável que as eleições da Primavera produzam um país ingovernável. Parece que nenhum governo será capaz de cumprir as condições de ajuda externa e chumbará logo nos primeiros exames trimestrais. Quando isso acontecer, a ajuda será interrompida e a Grécia deixará de pagar a sua dívida e será forçada a sair do euro.
Os líderes europeus estão convencidos de que vão conseguir suster o contágio da saída da Grécia a outros países, em particular a Portugal, mas, dado o cadastro destes dirigentes políticos nos dois últimos anos, é melhor não nos fiarmos na Virgem…
Investigador do NECEP, da Universidade Católica
Escreve à quarta-feira



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