Assembleia da República
António Pedro SantosPor Ana Sá Lopes, publicado em 9 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 15 semanas 1 dia
Um primeiro-ministro atirar borda fora as tradições é politicamente adolescente
A coisa mais penosa dos tempos que vivemos é a receita da troika assinada por José Sócrates. A segunda coisa mais penosa é ouvir Pedro Passos Coelho pregar a boa nova dos sacrifícios.
O programa está aí, foi assinado por Sócrates, a receita era má e tornou-se péssima. A juntar a isto, somos obrigados a ouvir em permanência um discurso religioso que pretende justificar uma espécie de quaresma económica – Portugal tem de sofrer porque pecou, para redimir os pecados, porque Merkel (aqui uma espécie de Cristo) também se sacrificou por nós.
A redenção pelo sofrimento é um fundamento essencial de quase todas as religiões. É mais esquisito que se tenha transformado no discurso oficial da política portuguesa, cuidadosamente produzido para justificar uma receita económica que até o FMI (um dos pais da criança) já reconhece ser um erro. Um dia um semiólogo fará a análise profunda do linguajar do primeiro-ministro e da sua aproximação ao discurso de pároco agrilhoado por amor a Cristo.
É a omnipresença deste discurso que transforma uma expressão dirigida a estudantes, como o “piegas”, num caso nacional. Em meio ano, Passos Coelho já várias vezes deu a entender que em cada português bate o coração de um preguiçoso, abana a cabeça de um artolas e permanecem dois braços cruzados.
A ideia de extinguir o feriado do Carnaval faz parte desta série sacrificial. É um facto de lei que o Carnaval não é um feriado, mas, com a digna excepção de 1993, sempre o foi. Está nos calendários escolares, nos acordos colectivos de trabalho, na “posse” das autarquias.
O argumento de que “não estamos num ano qualquer”, mas numa “emergência nacional” que obrigou à eliminação de feriados, “até de feriados religiosos” – sublinhe-se o “até”, em comparação com o despojamento revelado com o 5 de Outubro e o 1.o de Dezembro.
Mas a proeza do primeiro- -ministro reside na declaração de divórcio às tradições: “Não estamos em tempo de falar de tradições. Não é tempo de ficar agarrado às velhas tradições, o que nós queremos é vencer as dificuldades.” Ora não é preciso ser um conservador monárquico para perceber que uma parte da coesão social de um país reside precisamente nas tradições: algumas vezes são estúpidas, outras odiosas, muitas simplesmente ridículas; algumas merecem até ser combatidas. Mas o conjunto é indissociável de uma coisa chamada “identidade nacional” que convém não deitar ao lixo na primeira oportunidade. Que seja um primeiro-ministro a atirar borda fora as “tradições” tem qualquer coisa de politicamente adolescente. No mínimo.



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