A vaga de protestos populares em países árabes levou o Qatar a mudar de alianças
Por Diogo Noivo, publicado em 10 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 15 semanas 14 horas
A sua política externa, dinâmica e criativa, é capaz de feitos inauditos, como albergar a maior base militar dos EUA no estrangeiro e manter relações comerciais com o Irão
O Qatar é um estado de pequena dimensão situado na Península Arábica, com aproximadamente 1,7 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 230 mil são cidadãos nacionais. No entanto, apesar da reduzida dimensão territorial e demográfica, o Qatar atingiu nos últimos anos um lugar de relevo na cena internacional. Ficou conhecido por vencer, em Dezembro de 2010, a candidatura ao Campeonato do Mundo da FIFA de 2022 e por, através da Qatar Foundation, apoiar o Futebol Clube Barcelona. Todavia, o alcance e a influência deste pequeno estado árabe excedem largamente as bem-sucedidas campanhas de marketing internacional.
A sua política externa, dinâmica e criativa, é capaz de feitos inauditos como, por exemplo, albergar a maior base militar norte-americana no estrangeiro e, em simultâneo, manter relações comerciais e políticas com o Irão; ou ainda a capacidade de preservar boas relações com os regimes árabes vizinhos ao mesmo tempo que oferece exílio aos seus detractores. A dimensão do país, bem como a presença numa região cobiçada por gigantes como a Arábia Saudita ou o Irão, não impediram a diplomacia de Doha de um activismo capaz de mediar conflitos no Sudão, no Iémen ou no Líbano – um esforço que permitiu adquirir gradualmente uma maior influência na região. Ao ser o principal patrocinador e a sede da Al Jazeera, e muito embora negue a interferência na linha editorial, o Qatar tem beneficiado politicamente da cobertura jornalística feita pela cadeia televisiva – o que não é despiciendo para o êxito da sua política externa.
A recente vaga de protestos populares em países árabes levou o Qatar a uma alteração de alianças, mas não de estratégia. No passado mês de Janeiro, o emir do Qatar, o xeque Hamad bin Khalifa Al Thani, defendeu uma intervenção militar na Síria tendo sido o primeiro país árabe a adoptar esta posição. Porém, visto tratar-se do Qatar, não é algo inovador. Já no início da crise líbia, o Qatar foi o primeiro estado árabe a advogar uma acção armada contra Muammar Kadhafi. Doha tomou igualmente a dianteira no reconhecimento do Conselho Nacional de Transição Líbio – a estrutura rebelde – e agora circulam rumores segundo os quais o Qatar estará a vender armas aos rebeldes sírios. O apoio à contestação popular no estrangeiro ocorre sem o risco de abrir o flanco a uma contestação interna, pois com um PIB per capita constantemente nos lugares cimeiros dos rankings mundiais – se não mesmo no primeiro lugar das tabelas –, Doha consegue uma distribuição de riqueza eficiente, que, aliada aos baixos índices demográficos, minimiza as reivindicações populares de maior abertura democrática.
Este activismo internacional, mais que promover mudanças políticas, visa transformar as dinâmicas regionais em oportunidades. O Qatar não tenta mudar a região mas apenas aproveitar e criar nichos que lhe permitam consolidar e expandir a sua influência política. Esta estratégia internacional, consistente desde meados da década de 1990 faz com que o pequeno país árabe se encontre em condições de competir – ainda que com cautela e reserva – com a Turquia, a Arábia Saudita e o Irão pelo aproveitamento das condições criadas pela Primavera Árabe. O Qatar será, porventura e por mérito próprio, um dos maiores beneficiários desta Primavera inesperada.
Especialista em assuntos internacionais
Escreve quinzenalmente à sexta-feira



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