Por Duarte Lino, publicado em 9 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 15 semanas 1 dia
Dizia Nelson Rodrigues que, entre “o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista”. Perdoem-me o abuso de começar com uma citação que nem sequer é suscitada por um psicanalista, mas pelo antropólogo João Leal, que ontem afirma no “Público” — a propósito da exortação do primeiro-ministro aos portugueses de que se deixem de pieguices e aumentem a exigência – que o “povo não tem psicologia. As pessoas sim. O nacionalismo baseia-se muito nessa ideia de pessoa colectiva”. Centrei-me em João Leal, mas a reportagem do “Público” invocava um estendal de cientistas sociais de todas as proveniências que convergiam num único e grande sentimento de escândalo face à blasfémia de um político que critica o povo. “Será que Passos Coelho gosta dos portugueses?”, eis o mistério que adensa o nevoeiro português. Não sei se os povos têm ou não psicologia, mas têm certamente uma cultura. E essa cultura explica a forma como agem, aquilo que valorizam, o grau de tolerância que têm perante o erro e o fracasso. Pergunta: porque somos mais pobres que países com os mesmos recursos naturais, senão por causa da nossa forma colectiva de pensar e agir, da nossa cultura? E porque se indigna tanto um povo com um primeiro-ministro que censura a sua complacência quando, de eleição em eleição, exigiu uma gestão suicida das finanças públicas nacionais? Pieguice ou não – que importa?
O politicamente correcto por cá distribui as culpas todas pelas elites, mas a responsabilidade em última análise é do povo. O povo quer e depois sofre.
Escreve quinzenalmente, à quinta-feira



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