Pingo Doce
D.R.Por André Abrantes Amaral, publicado em 14 Jan 2012 - 03:00 | Actualizado há 5 semanas 5 dias
As críticas à ida de Soares dos Santos para a Holanda só beneficiam os culpados da triste situação em que nos encontramos
A sociedade Fernando Soares dos Santos, detentora da maioria do capital da Jerónimo Martins, decidiu mudar a sede social para a Holanda. De acordo com Alexandre Soares dos Santos, esta decisão deveu-se à instabilidade fiscal em Portugal e às boas condições que a Holanda oferece às empresas. A quem investe, monta um negócio e cria postos de trabalho. Algo a que, descobrimos nos últimos dias, a Holanda dá imenso valor. Algo que, atentas as críticas de tantos comentadores e os boicotes tentados ao Pingo Doce, me leva a concluir que não prezamos muito.
Nos últimos 25 anos, o Estado português sobreviveu à custa de um aumento gradual dos impostos e de um endividamento ao exterior que, para ser pago, nos levou às medidas de austeridade que conhecemos. Foram muitos os avisos de que, quanto mais o Estado exige a quem trabalha, menor é a vontade de trabalhar. É a velha máxima de quanto maior a tributação, menor a competitividade. Infelizmente, nenhum governante se preocupou com esta situação ou alterou a forma como geria os interesses do país. Porquê? Porque acreditavam no que faziam. Melhor: porque faziam aquilo em que queriam acreditar. Porque queriam que o Estado fosse o motor da economia e que, quanto mais este investisse e regulasse a actividade económica, melhor. Melhor para o país, já vimos que não. Mas melhor para o conceito de vida política que impregna os nossos governantes. Que os convence do direito de, conquistado o poder político, terem acesso ao poder económico. Distribuir benesses, repartir favores. Serem influentes, não à custa do que conseguiram com o trabalho, mas do dinheiro que cobram aos cidadãos.
O ruído à volta da decisão de Alexandre Soares dos Santos tem sido muito aproveitado pelos políticos de esquerda. Depois de tanta asneira cometida que nos obriga a passar pelas dificuldades que conhecemos hoje, não há nada como atirar poeira para cima dos outros. E é aqui que precisamos de ter cuidado. Que devemos parar, escutar e olhar com atenção para o que se passa. Para o porquê das coisas. A crítica à mudança da sede de uma sociedade, perfeitamente legal e que já aceitaríamos de bom grado se nos beneficiasse, é irracional e susceptível de ser conduzida por interesses que não nos dizem respeito. Por motivos que apenas interessam a quem tanto nos prejudicou nos últimos anos. Vivemos tempos difíceis com o desemprego, os salários em atraso e as poupanças a serem destruídas. Tempos que vão agudizar ódios e ressentimentos, sentimentos propícios a discursos oportunistas e demagógicos. Próprios de quem instiga a inveja e a animosidade como forma de justificar o seu discurso ultrapassado e estatizante.
Os políticos que criticam Soares dos Santos são os que andaram de mãos dadas com empresários, orgulhosos por os terem a investir em Portugal. São os que criticam a escolha de Catroga para a EDP, mas esquecem que a única forma de isso não acontecer é o Estado sair por completo das empresas. Agora que a forma de cativar investimento é reduzindo o poder do Estado, estes políticos estão assustados. Assustam-se porque receiam perder influência sobre os escolhidos. Porque a alternativa que sugerem, de impedir decisões como as da deslocação da sede de uma sociedade para o estrangeiro, implica o estabelecimento de um Estado policial em que tudo é proibido, desde que não seja em prol do Estado. Do poder político, mascarado de patriotismo. Ou já nos esquecemos de como nasce o nacionalismo bacoco? Assim, antes de reagirmos a quente, precisamos de pensar muito bem nos motivos de quem nos atira poeira para os olhos. Porque o fazem e com que objectivos. Temos de ser mais cuidadosos na análise da informação que nos chega. Na verdade, além de pagarmos impostos, também servimos para pensar.
Advogado
Escreve quinzenalmente ao sábado



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