Por André Abrantes Amaral, publicado em 22 Out 2011 - 02:00 | Actualizado há 30 semanas 6 dias
Nada é inevitável se não nos for cortado o dom da liberdade e do direito de sermos individualmente responsáveis pelas nossas escolhas
No início do século XVII, os Invernos europeus foram exageradamente frios. Choveu, nevou abundantemente e até o Tamisa gelou. As colheitas foram fracas e, com a fome, foram vários os avisos de fim do mundo. Entretanto, de medo em medo, os dias, semanas, meses e anos foram passando e, porque a vida continuou, a temperatura voltou a subir e as colheitas a ser colhidas. Daí em diante, e em vez do fim do mundo, assistimos a uma notável melhoria nas condições da vida humana.
As altas temperaturas de Outubro convidam a devaneios parecidos, alimentados pela crença cega num aquecimento global como sendo o preço a pagar pelo pecado de o homem ferir a Terra. Esta inevitabilidade, a ideia de uma força superior que determina o comportamento humano e dita as suas consequências, e que Isaiah Berlin revelou ter passado para as mãos de um deus não religioso, já serviu para sustentar as maiores atrocidades do século XX e diz-nos agora que o planeta não aguenta que continuemos como até aqui. A evoluirmos e a vivermos melhor. Depois dos comunismos e dos fascismos não terem conseguido estancar a força criadora do homem, diminuindo-lhe a liberdade, a tese da inevitabilidade histórica volta em força para nos tolher a responsabilidade pelos nossos actos e nos dizer como temos de nos comportar. Não deixa de ser relevante como muitos dos crentes na teoria das alterações climáticas, seja pelo aquecimento global ou por via de uma nova idade do gelo, que chegou a ser prevista no início deste ano, tendem a minimizar a responsabilidade individual, transferindo a causa para forças impessoais, como as potências poluidoras e as grandes empresas. Qualquer coisa, menos nós. A catástrofe é tão inevitável que pouco mais podemos fazer que não seja exigir medidas aos verdadeiros culpados, deixando de fora a nossa capacidade para, enquanto seres livres e individualmente responsáveis, descobrirmos uma solução inovadora. Por isso são tantos os que se preocupam com as alterações das temperaturas, mas incapazes de desligar o interruptor quando saem da sala.
Também neste mês de Outubro, o governo revelou o fim do subsídio de férias e de Natal para muitos funcionários públicos. Fê-lo para evitar o colapso do que resta da credibilidade do Estado, enquanto entidade omnipotente que emprega e não deixa cair os seus. Mesmo sabendo que devia despedir 50 a 100 mil funcionários, Vítor Gaspar prefere não o fazer. O custo de despedir é tão grande que mais vale continuar no erro que corrigi-lo. Quando algo de semelhante sucede numa empresa privada, esta entra em processo de falência. Com o Estado parece ser diferente, até porque foi nisto que o socialismo o tornou: um local de onde não se pode ser despedido nem despromovido, onde se está protegido por uma teia de leis cuja mudança traria consequências tão letais que o melhor é nada fazer.
Sucede que, não se cortando o mal pela raiz, só se vai acentuar a falta de dinheiro do Estado. A tal ponto que não creio que o pagamento dos subsídios de férias e de Natal sejam retomados. Junte-se esta sentença à obrigatória redução do número dos que trabalham no sector público e é fácil imaginar a revolução nas mentalidades a que teremos de assistir para sairmos desta situação. Aquele emprego seguro que era para a vida acabou. Desta crise só se sai mudando a forma de pensar. Um Estado impessoal vai deixar de tomar conta de todos e nós passaremos a contar uns com os outros. A recessão vai ser forte, mas o resultado não é necessariamente pior. Conscientes das nossas responsabilidades, livres da inevitabilidade estatal, encontraremos soluções. Podemos aceitar que a sociedade não é o Estado e o desenvolvimento não se centra nele. Que nada se determina e tudo se reinventa. Tanto na Terra como na despesa.
Advogado
Escreve quinzenalmente ao sábado


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