Numa semana em que se continua a discutir o Orçamento do Estado, Vítor Gaspar garante que é necessário encarar a crise como uma oportunidade de mudança.
...Por Bruno Faria Lopes, publicado em 20 Jan 2012 - 03:00 | Actualizado há 4 semanas 6 dias
Na mesma semana em que o primeiro-ministro italiano pressiona a Alemanha, o governo português perde-se na bolha de ficção em que insiste em mergulhar o resto do país
Numa semana em que se continua a discutir o Orçamento do Estado, Vítor Gaspar garante que é necessário encarar a crise como uma oportunidade de mudança.
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Não foi por acaso que Vítor Gaspar recitou “O Mostrengo” no final do discurso que fez ontem perante uma plateia de especialistas portugueses e da troika – as palavras do ministro das Finanças, à semelhança das do poema de Pessoa, são um exemplar perfeito de poesia de índole épico-lírica. O ministro fala de viragem na percepção dos mercados, mas a viragem está no discurso do ministro. Gaspar deixou oficialmente o território dos argumentos racionais para embrulhar o país numa bolha de ficção feita de frases que o aproximam muito de uma pessoa – o seu antecessor, Teixeira dos Santos.
“Ontem tivemos um sinal de que podemos estar a aproximar-nos de um ponto de viragem.” Quando um ministro das Finanças começa a usar publicamente leilões de dívida de curto prazo como sinais de viragem, o único sinal visível é de desespero. Não há “viragem” alguma. Os investidores compraram a dívida pela mesma razão por que eu tenho dívida do Estado português a vencer em Junho deste ano – porque paga bem e porque paga este ano, que está coberto pelo dinheiro da troika. O que seria um sinal de viragem? No mercado secundário os juros da dívida a longo prazo mostrarem uma queda sustentada. Mas, ironia suprema, no mesmo dia em que Gaspar revela sinais, os juros a dez anos tocam um novo recorde histórico.
Este recorde e o corte do rating deveriam ser um sinal ominoso para o ministro – como é para outros políticos, mesmo não eleitos e com rótulo de tecnocratas, como o primeiro-ministro italiano. Mario Monti avisou esta semana que haverá uma “forte reacção de ricochete” nos eleitorados dos países periféricos se a zona euro (leia-se “a Alemanha”) não fizer mais para baixar os custos de financiamento. Monti afirmou ainda que irá “pressionar a Alemanha para perceber que é do seu próprio interesse” ajudar mais a Itália e outros países sobreendividados. Isto é um sinal de viragem: o líder de um país a receber assistência financeira oficiosa, um país fundador da União Europeia e com peso, toma uma posição vertical perante um problema que compromete a eficácia da sua política e o bem-estar de toda a sua população.
Mas em Lisboa a atitude é outra. Gaspar enaltece “sinais” e os “progressos consideráveis no processo de consolidação orçamental”. Talvez valha a pena lembrar que o ministro não começou ainda a consolidar. O Orçamento para 2011 não é da sua autoria e só foi cumprido em toda a sua imperfeição com medidas extraordinárias, como o corte do subsídio de Natal e a transferência dos fundos de pensões da banca, com custos para nós, contribuintes. Sem isso o défice seria superior a 8% do PIB. E talvez valha ainda a pena lembrar que em 2012, num Orçamento já da sua autoria, o governo continua sem consolidar: 75% da dieta duríssima será feita com cortes temporários na despesa e mais impostos. Martelar valores numa folha de Excel para dar 4,5% de défice não é “um progresso considerável”.
Com os “sinais” e com os “progressos”, o ministro das Finanças conclui que “a incerteza sobre o sucesso do processo de ajustamento português foi já substancialmente reduzida”. A avaliar pela reacção dos mercados, ninguém diria. A avaliar pelo facto simples – e muitas vezes esquecido – de Portugal não cumprir (em 2011 e seguramente em 2012) nenhuma da metas quantitativas do Memorando, também ninguém diria. A avaliar pelo risco de descarrilamento que todo o programa implica – e que o Banco de Portugal explica com paciente detalhe – também não.
O que está ser “substancialmente reduzida” é a credibilidade de Vítor Gaspar, pelo menos a nível interno. Depois de começar um ano crucial com a apresentação de um desvio, o ministro do rigor fala em viragens míticas e de unicórnios contra a mais elementar realidade. Talvez Gaspar saiba mesmo de algo que nós não saibamos, mas nesse caso pedimos que partilhe com o resto do país – caso contrário, podemos mesmo ficar preocupados.
Jornalista, escreve à sexta-feira


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