Os “piegas” começam a perder a paciência
Rafael marchante/reutersPor Eduardo Oliveira Silva, publicado em 8 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 15 semanas 2 dias
Há que ser realistas. Não é possível tirar mais desta gente. A exaustação está perto. A sua resistência e paciência podem esgotar-se
Podem ter entre os 45 e os 75 anos. Trabalharam ou trabalham no duro. Passaram por crises e preocupações. Fizeram o que, ao longo dos anos, políticos, banqueiros, bancários, publicitários, analistas, jornalistas e comentadores lhes disseram estar certo. Compraram casa. Pouparam o que podiam. Construíram o que têm honestamente, embora pontualmente com a consciência de que os amanhãs poderiam não cantar. É verdade que uns ou outros lá se esticaram com uns gastos e umas viagens, agora quase consideradas crime. Esta gente, muita gente, tem hoje um papel social relevantíssimo e, lamentavelmente, é o grupo que mais sofre. É a classe média (da média baixa à média alta).
Os mais novos têm filhos estudantes ou à procura de emprego. Muitos têm, também, pais mais velhotes de quem cuidam e acompanham na doença, por afecto ou necessidade económica. Como se não bastasse, é para eles que se olha no trabalho, para ver se há alguma hipótese de despedir e substituir por “carne mais tenra e barata”. São eles que são mais atingidos por despedimentos individuais e colectivos. São eles que têm acesso cada vez mais limitado a instrumentos sociais. São eles que têm de ganhar qualificação para além do trabalho se querem sobreviver. São eles que mensalmente entregam dezenas de casas aos bancos que não conseguem pagar. Antes ainda davam umas voltas de carro e lá iam a um restaurante de vez em quando. Hoje fogem do consumo. Alimentam a recessão.
Os mais velhos, esses, vivem das suas pensões, mas estão longe de ser os europeus de classe média que andam nos cruzeiros. São avós esforçados, pobres ou remediados que apoiam filhos e netos. Na cidade ou na província, lá andam eles sempre preocupados, sempre disponíveis, sempre atarefados. Mais finos ou mais modestos, é vê-los por todo o lado na sua incomparável função social.
Tentam fintar a velhice que implacavelmente se aproxima e os vai tolher. Fingem que está tudo bem, enquanto enfrentam a vida com uma força solidária e ajudam os seus descendentes. Viveram guerras coloniais, fascismo, comunismo, socialismo, euforia europeia e agora verificam que foram joguetes na mão de inconscientes, de demagogos e de aldrabões, que lhes impunham os TGV que não existem e as PPP e as Scut que custaram milhões. Vêem com espanto alguns desses arautos gritar por austeridade. Ficam sem as pensões ou as reformas com que contavam, não para eles mas também para ajudar os seus. Cortaram nos seus mil euros, como se de milionários se tratasse.
Estes portugueses todos são o verdadeiro amortecedor social do país. São eles que, muitas vezes, “carregam o piano”. São a segurança social que não há. São a creche que está cheia. São o lar que não existe. São os cuidados de proximidade que estão saturados. São os bombeiros sem farda de um quotidiano difícil, de um país pobre e em regressão. São o complemento do dinheiro, que é pouco. São sucessivamente a ternura de um carinho, a voz que adverte, mas são, sobretudo, um suporte essencial do quotidiano português e do Sul da Europa.
Lamentavelmente, é sobre esta gente que se abate a draconiana política de austeridade que a crise impôs.
Este larguíssimo grupo social é que sofre mais directamente a crise. É sobre ele que caem os maiores sacrifícios. É sobre ele que pendem os despedimentos. É sobre ele que cai o cutelo fiscal. É sobre ele que caem as leis de liberalização da economia, como a das rendas. Mas é sobre ele também que querem que caia a responsabilidade de fazer funcionar a economia e de consumir.
Há que ser realistas. Não é possível tirar mais desta gente. A exaustação está perto. A sua resistência e paciência podem esgotar-se. É preciso ter noção de que foi este povo de brandos costumes que há um século assassinou um rei, um presidente e viveu em anarquia, no Verão quente de 1975.
É bom que o governo, que anda a vender os anéis que restam, tenha consciência de que está cá para resolver os problemas e não para os agravar. E a solução está em conseguir crescimento e não só austeridade.
Nota – Passos Coelho tem falado diariamente para justificar medidas mal explicadas. É um sintoma político de fragilidade e inoportuno para ele.
Jornalista. Escreve às quartas-feiras



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