Portugal e Grécia, o mesmo problema económico
Yannis Behrakis/ReutersPor Jorge Bateira, publicado em 9 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 15 semanas 1 dia
O drama da Grécia diz-nos respeito. Por muita propaganda que o governo faça, a verdade é que, no essencial, Portugal também é a Grécia
Com eleições dentro de dois meses, os partidos que apoiam o governo grego estão encurralados. Para evitar a bancarrota já em Março, aceitam as condições que lhes são impostas. Mas sabem que o acordo é rejeitado pela população e que serão penalizados nas eleições. As sondagens apontam para uma pesadíssima derrota dos socialistas e uma vitória magra da direita. Porém, falta saber até que ponto a fúria dos eleitores é (ou não) canalizada para uma votação nos partidos da esquerda do protesto a um nível tal que ponha em causa a estabilidade do apoio parlamentar de que o novo governo precisa. Em breve os gregos vão ter a última palavra: suportam o aprofundamento do desastre sem fim à vista ou vencem o medo de deixar o euro. E veremos se os partidos que se batem contra a austeridade estarão à altura do drama que o seu país vive.
O drama da Grécia diz-nos respeito. Por muita propaganda que o governo faça, a verdade é que, no essencial, Portugal também é a Grécia. No comentário que passa nas televisões já se admite que Portugal vai ter de recorrer a novo financiamento em 2013. A razão invocada é quase sempre o efeito de contágio da situação grega. Quer dizer, os mercados financeiros teriam deixado de acreditar que a Grécia é caso único e passaram a incorporar nos preços das suas transacções um futuro corte nos seus créditos. Mas a questão é muito mais complexa.
Por muito que os economistas da ortodoxia ocultem o fundo da questão quando chamados a comentar nas televisões, a verdade é que a falta de competitividade da economia portuguesa no seio da zona euro, a política recessiva entretanto imposta e a consequente dinâmica da dívida pública, no seu conjunto, criaram um problema que não é resolúvel com sucessivas injecções de liquidez. Portugal tem um problema de insolvência (pública e privada) de que só sairá com uma restruturação drástica da dívida pública e dos seus bancos, acompanhada de uma estratégia de desenvolvimento económico que não é compatível com a integração numa zona monetária liderada pela Alemanha. O afundamento da nossa economia ao longo do corrente ano vai tornar claro que um novo pacote de financiamento, mesmo sem as condições cruéis que agora foram impostas à Grécia, apenas permitirá reciclar dívida velha e financiar o défice, mantendo-se o país na depressão. Entretanto, as ditas reformas estruturais vão passar ao lado do problema, ou vão mesmo agravá-lo produzindo retracção do consumo e aumento do desemprego.
Quando o fracasso da estratégia de empobrecimento tiver sido assimilado pela maioria dos portugueses, e com a aproximação das negociações para o segundo pacote financeiro, em 2013, não faltarão vozes a clamar por um governo de salvação nacional com o apoio do Partido Socialista. Para a Alemanha, esse apoio seria uma garantia adicional de que a reengenharia ordoliberal do país seria de difícil reversão. Que o país fique arrasado social, económica e financeiramente e que grande parte da população jovem tenha de emigrar, isso é coisa que não preocupa a Alemanha. Tal como na Grécia, haverá sempre alguém em Bruxelas ou Berlim para nos lembrar que a saída do euro é a alternativa para quem não aceita a punição. O pior é que os partidos da esquerda portuguesa continuam tolhidos por uma dupla ilusão: com eleições em França, e com a luta social na Europa, haverá condições para uma reforma da UE que crie um “euro bom”; com transferências orçamentais da Europa rica, no quadro de uma outra União, Portugal teria condições para se desenvolver. Enquanto estas ilusões se mantiverem, não haverá luz ao fundo do túnel para os portugueses. Pela simples razão de que não será possível construir uma solução política alternativa, portadora de regeneração e de esperança. Algo de que os gregos, aliás, também carecem.
Economista, co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
Escreve quinzenalmente à quinta-feira



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