Por Fernando Alvim, publicado em 11 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 14 semanas 6 dias
De entre todas as nobre artes conhecidas, a melhor de todas parece-me claramente o insulto. O insulto, quando bem feito, chega a ser aristocrático, mas basta um deslize, uma espécie de ingrediente errado na comida, para inquinar o almoço, para o tornar saloio e torpe. Sejamos claros, o insulto deve ter classe quando todos pensariam que faríamos o contrário e não a deve ter em situação justamente inversa. Para que me entendam: um homem abeira-se de outro e dirige-lhe impropérios vários que ofendem e denigrem a sua dignidade, o seu eu, mas em particular a da sua progenitora, insinuando este homem que essa senhora, já com provecta idade, desempenha ainda – por Deus – uma actividade profissional usualmente isenta de impostos. Perante a injúria, ao saber que a sua mãe já não desempenha tal função desde o P.r.e.c, o receptor deve ter requinte, deve ser fino, como quem limpa com aveludada parcimónia os canos de uma arma. E ao apontá-la deve acertar-lhe na testa. A pior resposta para tudo é ser óbvio, e no insulto também é assim. Daí que devamos evitar a todo o custo a inocência das crianças de recreio quando nos seus primeiros exercícios de tensão vocabular vão dizendo "És gordo!" ao que a outra responde "És feio".
E andamos nisto. O que me leva a recordar um dos mais célebres episódios envolvendo Winston Churchill. Diz a história que num dado dia, uma conhecida deputada britânica que o odiava profundamente se abeirou deste e lhe disse: "Ouça, se eu tivesse um marido como você, dava-lhe um copo com veneno", ao que Churchill terá respondido: "E se eu fosse seu marido bebia-o." A ser verdade – e nada diz o contrário –, Churchill seria o tipo ideal para responder ao homem que aqui umas linhas acima insultava de forma pouco prazenteira a mãe de quem queria hostilizar, com uma linguagem pouco ortodoxa. Penso: que mau seria se Churchill tivesse ido pelo mais fácil e lhe respondesse como os miúdos naquele recreio. Parece que imagino a tal deputada, num dia de sol como os outros, a entrar de rompante no seu gabinete e a dizer-lhe: "Ouça, se eu tivesse um marido como você, dava-lhe um copo com veneno" ao que Churchill responderia: "E tu és feia!" Mas pensando bem não seria uma resposta assim tão má, porque o insulto, na melhor das hipóteses, está sempre a dizer "És feio!", seja do ponto de vista moral, seja ético ou físico. E isto, se virmos bem, é como todas as canções que, analisadas de forma minuciosa, ou de uma forma ou de outra, falam sobre o amor, desaguam no amor, mesmo que dissertem sobre como é aborrecido trabalhar aos domingos. Na televisão, quando vejo um político a dizer "o senhor deputado faltou à verdade porque não cumpriu com o que disse no seu programa eleitoral", na verdade ouço-o a dizer "És feio", como quando alguém canta, por exemplo, deixem cá ver, "Não gosto de domingos à tarde, fico com feitio alarve, nah nah nah", eu ouço "Eu amo-a e gostava de estar com ela agora". E isto lembrar-me um dos meus insultos preferidos, curiosamente da minha autoria, mas que podem usar livremente visto eu ser um bom homem. Chamo-lhe o insulto Soraia Chaves. O cenário é este. Eu e mais dois ou três amigos estamos encostados à parede a fazer o que melhor sabemos fazer: ver as raparigas passarem. E num desses dias (e agora vão ter de imaginar o ambiente gabarola que caracteriza os grupos de rapazes sem nada que fazer) a Soraia Chaves passa e eu, sem a conhecer, digo-lhe em tom marialva: "Olá Soraia, estás boa?" E perante a mais que justa indiferença que por mim mostra, perante o silêncio constrangedor, na necessidade de dizer qualquer coisa requintadamente insultuosa, apenas lhe digo: "Então, Soraia, já não me conheces vestido?"



Comente esta Opinião