Por António Ribeiro Ferreira, publicado em 5 Dez 2011 - 03:00 | Actualizado há 11 semanas 3 dias
Portugal está falido, está na bancarrota, anda de mão estendida. Já perceberam?
Num conselho de ministros de preparação do Orçamento do Estado para 2012, um ministro tentava o tudo por tudo para evitar o corte proposto pelo ministro das Finanças para o seu ministério. Reza a lenda que Vítor Gaspar, no tom de voz que os portugueses já conhecem, respondeu ao colega de uma forma mortífera: “Não há dinheiro. Qual destas três palavras não percebeu?” Fim de conversa. Para evitar mal entendidos, concertações intermináveis e inconclusivas com sindicatos e confederações patronais, protestos das comissões fantasmas dos utentes das SCUT, dos centros de saúde e dos hospitais prometidos em tempos que já lá vão, de carreiras da Carris e linhas do Metro, de empresas públicas de transportes falidas, de defensores de comboios com bonitas vistas e sem passgeiros, o governo devia lançar uma campanha muito simples com as palavras “não há dinheiro”. Para início de qualquer conversa interessante com intelectuais, empresários, oposição, sindicalistas, presidentes de câmaras e de freguesias nada melhor para atalhar caminhos e chegar a uma conclusão em tempo útil. Isto é, enquanto Portugal ainda tem ajuda externa e a Europa não entra em colapso total, com o fim do euro e o inevitável regresso ao escudo. Enquanto a desgraça total e absoluta não chega, importa meter na cabeça de muita gentinha que o país não tem hipótese de se aguentar sem os dinheiros que lhe estão a emprestar a uns juros razoáveis tendo em conta a hecatombe a que chegaram as contas nacionais e as suas dívidas públicas. É preciso explicar muito bem explicadinho, como se as pessoas fossem todas muito estúpidas, que o Estado já não é capaz de pagar os salários dos funcionários públicos e as reformas dos pensionistas, para já não falar dos subsídios sociais, a educação e o serviço nacional de saúde. Não há dinheiro. É a mais pura das verdades. E muita sorte tem Portugal em estar na União Europeia e ter entrado na moeda única. Agora é preciso calar e cumprir rigorosamente o que está estabelecido com a troika. Agora é preciso dar graças a Deus sempre que a troika desbloqueia mais uma tranche para os cofres do Estado. Agora é tempo de unidade nacional. Agora é tempo de andar de bico calado e não fazer muitas ondas. Agora é tempo de acabar com a irresponsabilidade dos irresponsáveis que atiraram o país para a desgraça. Agora é tempo de esperar que a Alemanha consiga encontrar soluções para a crise do euro e das dívidas soberanas. Agora é tempo de expiar os pecados de anos de gula e desperdício. Agora é tempo de acabar com os direitos adquiridos e encontrar uma carta dos deveres atribuídos a todos os portugueses, de alto a baixo. Agora é tempo de acabar com utopias e ilusões, soberanias e independências. Agora não é tempo para o exercício de democracias directas ou indirectas. Agora já não há tempo para hesitações ou referendos sobre o que se vai passar na Europa e em Portugal. Se Vítor Gaspar tem razão quando diz que “não há dinheiro”, não é menos verdade que Portugal não tem tempo a perder com formalismos próprios de gente rica. A ordem está falida e os frades famintos.



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