Por Ana Sá Lopes, publicado em 18 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 13 semanas 6 dias
O exemplo da Islândia deveria ser uma lição de economia para todos
Paulo Portas, outrora provedor dos desempregados e dos pensionistas à direita, está em parte incerta e o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, diz que a culpa é do “socialismo”. Os números do desemprego são tenebrosos e ainda não bateram no fundo: vai ser muito pior daqui a um ano, mesmo que consigamos, por milagre, escapar à tragédia como está a acontecer na Grécia.
E quando julgávamos que o primeiro-ministro não tinha solução nenhuma para isto – afinal quem manda é a senhora Merkel e as metas do défice impostas pela troika –, ele diz que tem. “Estaremos em condições de reduzir estruturalmente o desemprego quando a receita socialista deixar de toldar a mente dos governantes”, explicou Pedro Passos Coelho ontem no parlamento. O primeiro-ministro parece convencido (sinceramente?) de que depois da implosão do Estado e da passagem pelo governo das mentes brilhantes da reencarnação caseira da escola de Chicago o futuro será glorioso.
A maior das tragédias não está em Pedro Passos Coelho não ter poder nenhum face às directivas de Bruxelas (o que, em si, é péssimo). A tragédia definitiva é que, de facto, Pedro Passos Coelho não tem poder nenhum face aos ditames de Merkozy, nem tão-pouco pretende ter.
Há uma conjugação das estrelas que permitiu que o livro “Mudar” – o manifesto ideológico liberal lançado muito antes de Pedro Passos Coelho ser alcandorado a líder do PSD – se tornasse a bíblia nacional, sob o argumento de que se trata de uma “inevitabilidade” e tem de ser aplicado por imposição externa.
Quase toda a direita sucumbiu ao livro “Mudar” (aliás, no seu todo, uma coisa bastante fraquinha).
No meio da concórdia geral à direita, de vez em quando ainda aparecem umas excepções capazes de falar alto: Pacheco Pereira continua a ser social-democrata, Bagão Félix continua a ser democrata-cristão e até a ex-líder do PSD Manuela Ferreira Leite parece imprevisivelmente uma perigosa socialista. Mas o conformismo dominante deixa perceber que tanto a social-democracia à moda do PSD como a democracia-cristã à moda do CDS estão em vias de extinção.
O exemplo da Islândia – que conseguiu recuperar economicamente depois de ter recusado salvar os seus bancos – deveria ser uma lição de economia para todos, principalmente para a Europa em transe. Ao contrário de Portugal, a Islândia já não é “lixo” para a famosa Fitch; é antes um investimento fiável. Para um liberal que se esforçará até ao último tostão por salvar um banqueiro mas não um posto de trabalho, esta história é do domínio do fantástico.



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