Samurais
khaavren, no Flickr.com / Licença Creative Commons 2.0Por Carina João, publicado em 3 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 16 semanas 14 horas
É por isso que regresso às minhas memórias, àquela idade da música em que as estrelas ainda brilhavam no céu e ainda não carregava todas as preocupações actuais
Das estrelas do céu ao baile da paróquia… que maravilha… não há, de facto, memória de melhor álbum de música portuguesa, a meu ver, claro. As lembranças que tenho das músicas deste vinil remetem-me sempre para épocas particulares da vida, a passagens da infância, da adolescência and so on… até hoje. Acho que acontece o mesmo com todos nós, associar música, cheiros, rotinas ou paisagens a estados pessoais de alma.
Isto vem a propósito de uma reminiscência que tive há pouco tempo com uma das iniciativas parlamentares em que mais gosto de participar, o Parlamento dos Jovens.
Levar às escolas o testemunho daquele que é o trabalho do órgão de soberania e partilhar da visão dos mais novos, as suas expectativas e também as suas angústias, é sempre uma forma de perceber como estão a ser preparados os futuros caminhos deste nosso país. Fácil me é pois confessar a minha grande admiração por alguns testemunhos a que tenho assistido.
Não raras as vezes tenho participado em debates que em tudo se assemelham a debates parlamentares, tal a actualidade e tal o grau de consciência que estes jovens têm da vida, do mundo que os rodeia e, acima de tudo, do estado em que se encontra o país, que sentem já ser deles, a par das preocupações dos pais e familiares mais velhos.
Da escola transportam a informação e os conhecimentos, mas a vida já os vai ensinando que isso não chega. Perguntam-me o que vão fazer quando acabarem de estudar dadas as condições de desemprego actuais, o que se passou com a Parque Escolar, o que pode acontecer à Europa e ao euro, quando acaba a crise, quem deve responde por isto tudo e…e perguntam tudo aquilo que a sua pureza e voluntariosa juventude entende ser a solução mágica para os problemas que assolam o país que amam.
É por isso que eu regresso às minhas memórias, àquela idade da música onde as estrelas ainda brilhavam no céu (ou eu ainda tinha tempo para as ver…) e ainda não carregava na minha mochila todas estas preocupações actuais. Num curto (!) espaço temporal, as gerações mais novas têm uma pesada carga de sobrevivência, seja porque quererem desde cedo ajuizar de seu próprio destino, seja por não lhes agradar ficar na dependência dos progenitores até tardia idade.
Outras coisas bastante curiosas tenho encontrado nesta geração tão jovem. Têm em si uma ideia pouco enraizada sobre o papel do Estado. Não o percebem, não o enquadram e não lhes conhecem os limites. Ora pedem que o Estado “dê”, providencie e disponibilize … ora pedem que lhes deixe caminho para não existir em certas áreas com a dissolução de algumas áreas governativas e o fim da sua intervenção social.
E têm também uma curiosa interpretação de liberdades, porque aquilo que lhes chega todos os dias lhes dá a entender que é preciso mais restrição: “Ó deputada, isto devia ser proibido, aquilo devia ter uma lei que reprimisse, e mais isto e aquilo…”
Como é que numa geração democrática contemporânea passa a ideia de tanta repressão? E como é que uma geração com tanta informação a chegar-lhes em tempo real e disponível em tantos meios, pedem sempre que se explique o que se passa na actualidade? Não percebem muitas vezes a informação e contra-informação que têm ao seu dispor e por isso a imagem de alguém sénior serve-lhes de filtro, porque não o conseguem ainda de modo autónomo ou porque o querem para ponto de comparação com aquilo que é o seu juízo de valores. Os professores confessam-me também isso, que a era mais virtual da tecnologia os obriga a ser uma maior ligação ao mundo à sua volta e à construção de uma sólida base de valores tão distantes e ambíguos nesse mundo que lhes entra computador a dentro.
Durão Barroso percebeu que era preciso dar uma resposta ao drama do desemprego jovem num espaço de paz europeu. Destinar fundos comunitários para ajudar a esta promoção de emprego é certamente utilizar bem os dinheiros públicos, apostando no futuro.
Aos samurais pedia-se que servissem com lealdade, disciplina e habilidade, valores que tenho tido a felicidade de encontrar nas escolas onde tenho levado o parlamento aos jovens e onde tenho percebido que, dos meus tempos de mingus até hoje, eles têm muito mais consciência das suas paixões e daquelas que querem que sejam as suas estrelas do céu… assim saiba o país dar-lhes a coragem necessária, mantendo-lhes viva a esperança, o sonho de acreditar num amanhã português!
Deputada do PSD



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