Atenas
Diego Lopez, no Flickr.com - Licença Creative Commons 2.0Por Ana Sá Lopes, publicado em 23 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 13 semanas 1 dia
O fim da democracia como a conhecemos já é oficial no lugar onde ela começou
As coisas são tão absurdas que parecem feitas de propósito. A humilhação de Atenas em todo o processo que conduziu à aprovação do segundo resgate poderia ter sido obra de um doido qualquer de extrema-direita, empenhado em ressuscitar os fantasmas do século xx europeu. Mas não: é obra de uma chanceler que gere a Europa como se fosse a sua sala de aula particular – e que ainda ontem repetiu a ridícula expressão, dirigida aos alunos Portugal, Irlanda, Grécia, de que “façam os trabalhos de casa”. Merkel deve obediência ao seu eleitorado, eleitorado esse que infelizmente se identifica muito mais com um doido de extrema-direita disposto a assassinar as democracias europeias do que com as delícias do léxico oficial das comunidades, que inclui palavras politicamente extintas como “solidariedade”, “coesão” e até “subsidiariedade”.
Quando essas palavras foram inventadas e incluídas nos documentos oficiais, a Europa não tinha um conjunto de líderes mais ou menos ignorante da história do século xx e dispostos a tudo, quais doentes de perturbação obsessivo-compulsiva, para “cumprir as metas”, seja qual for o racional económico disso nesta altura do campeonato.
Esses líderes que inventaram a Europa por razões económicas e políticas eram quase todos filhos da Segunda Guerra Mundial, tinham sofrido na pele o horror e a devastação, a reconciliação e o perdão (um imprevisível perdão que permitiu à República Federal Alemã a integração social de grandes quadros nazis, por exemplo, para não falar do perdão das reparações de guerra, nomeadamente da Grécia).
Hoje a Comissão Europeia vai anunciar a previsão das tais “metas” e dificilmente se espera outra coisa senão a repetição de um cenário da Grande Depressão do século xxi. Ainda não batemos no fundo, mas a ideia é essa.
As condições impostas à Grécia são devastadoras e os peritos da própria Comissão admitem, num documento interno divulgado pelo “Financial Times”, a muito evidente possibilidade de a destruição da economia grega ser acelerada – e não haver nenhum cumprimento de metas à vista. À parte o desenho económico, as condições humilhantes em que se irá instalar em Atenas uma espécie de comissário europeu para vigiar as contas gregas (depois da polémica inicial, a Alemanha mudou apenas o nome da criatura, mas não os objectivos) e a imposição da revisão constitucional transforma o pacote de resgate grego numa metáfora do fim da democracia como a conhecemos, no lugar onde ela começou. Brincar com estas coisas é ignorar que, historicamente, a Europa é um lugar muito perigoso.



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