Numa semana em que se continua a discutir o Orçamento do Estado, Vítor Gaspar garante que é necessário encarar a crise como uma oportunidade de mudança.
...Por António Ribeiro Ferreira, publicado em 11 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 14 semanas 6 dias
Um governo sem autoridade para acabar com uma palhaçada tem pouco futuro
Numa semana em que se continua a discutir o Orçamento do Estado, Vítor Gaspar garante que é necessário encarar a crise como uma oportunidade de mudança.
...O vídeo gravado em Bruxelas pela TVI, com uma conversa entre o ministro Vítor Gaspar e o seu colega alemão, é perfeitamente devastador para a imagem do titular das Finanças e, por tabela, para o governo português. Não há volta a dar. Não são apenas as palavras trocadas entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schäuble sobre a flexibilização do programa da troika para Portugal que causam embaraço em S. Bento.
É a postura subserviente do ministro português e a natural superioridade do alemão que provoca perplexidade a muita gente que ainda imagina, qual sonho de uma noite de Verão ou Inverno, que Portugal é um país soberano, dono do seu destino, e que a democracia é algo sério e não uma mera palhaçada para português ver. É evidente que a culpa do estado a que tudo isto chegou não é de Berlim nem dos alemães, insensíveis às especificidades dos povos do Sul, em particular do lusitano. Portugal e os sucessivos governos democráticos fizeram tudo o que podiam e não deviam para chegar à bancarrota. E agora não há mesmo alternativa.
O país é pobre, nunca foi rico, e está a empobrecer todos os dias. Não são lamúrias à Jorge Sampaio nem pieguices à Passos Coelho. É a realidade, pura e dura. E se tudo correr mal na Grécia e também com o programa português da troika, o mais natural é que o futuro seja ainda mais negro, com o país a ser corrido da zona euro para uma miséria tal que os anos da ditadura e do salazarismo seriam por certo recordados com muita saudade. Mas para evitar a pieguice e a lamúria e levar de vencida esta batalha pela sobrevivência é preciso que haja autoridade. Sim, democratas, autoridade. A palavra não é do agrado de muita gente, mas se o governo não tiver autoridade bem pode fazer as malas e entregar o poder a um grupo de comissários alemães para pôr isto na ordem. E os sinais não são manifestamente positivos.
Basta ver o que se passou e está a passar com a reforma do poder local, em que os autarcas, autênticos seguros de vida eleitorais do PSD e do PS, impõem a sua vontade a Lisboa, ao tal Terreiro do Paço que há muito já não é o que era. Os cortes nas autarquias ficaram-se pelo elo mais fraco, as freguesias, e mesmo assim é melhor esperar pelo resultado final para lançar os foguetes. As câmaras, essas, ficaram com as mãos livres para fazer o que quiserem e até recebem uns prémios se aceitarem umas fusões.
E agora, que o governo tomou a mais que razoável medida de acabar com a estúpida tolerância de ponto do Carnaval, é ver como os municípios, no uso dos seus amplos poderes, estão a decretar feriados por todo o lado, à medida de cada freguês, em nome, claro, do turismo, do dinheiro gasto nas palhaçadas e no direito ao descanso dos seus eleitores. Perante esta enorme bagunça, o governo tem estado muito caladinho porque está de pés e mãos atadas a leis obsoletas que dão imensos poderes aos autarcas da santa terrinha. A coragem não pode esgotar-se nos orçamentos, nos aumentos de impostos e nos cortes de subsídios. A coragem revela-se nos momentos em que é preciso fazer frente à diversas máfias que assaltaram o Estado com as bandeiras e os emblemas dos pilares da democracia.


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