Por Tomás Vasques, publicado em 16 Jan 2012 - 03:00 | Actualizado há 5 semanas 3 dias
Num país massacrado por violentas medidas de austeridade é servido, a uma casta que gravita à volta do poder político e económico, um despudorado banquete
Há mais de um século que, em momentos como o que vivemos, citamos Eça de Queiroz, quando em Os Maias, referindo-se a Portugal, escreveu: «Isto é uma choldra torpe. Nunca houve uma choldra assim no universo!» Os portugueses têm cada vez mais razões para citar, com propriedade, o nosso grande escritor do século XIX. A trapalhada do ministro das Finanças à volta dos encargos com as pensões da Banca no Orçamento de 2012, o que vai exigir novos sacrifícios ainda este ano, não apagou o que se passou a semana passada com as escolhas – uma lista de agradecimentos ao primeiro-ministro - para o Conselho de Supervisão da EDP ou para a Administração das Águas de Portugal e, sobretudo, com o conhecimento das remunerações a atribuir a cada um dos contemplados. É verdadeiramente pornográfico – comentou, com razão, Marques Mendes, ex-presidente do PSD, num assomo de distanciamento.
Num país massacrado por violentas medidas de austeridade, assumidamente destinadas a empobrecer milhões de portugueses, em que não escapam as famílias de menores recursos, desempregados e reformados, é servido em bandejas de prata, a uma casta que gravita à volta do poder político e económico, um despudorado banquete – uma verdadeira orgia, a lembrar a Grande Farra, de Marco Ferreri. E pago com dinheiro de quem, em muitos casos, não tem dinheiro para comer. E não adianta o governo e o seu primeiro-ministro, Passos Coelho, lavar as mãos como Pilatos e «explicar» que a EDP é uma empresa privada e que não interferiu nas escolhas anunciadas; ou que o Partido Comunistas Chinês escolheu «caras conhecidas e que estiveram em Macau», na versão de Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva, um dos maiores beneficiados do descomunal regabofe das privatizações. As facturas da electricidade, que atingem todos os portugueses, empresas e famílias, mas sobretudo os que ganham salários de miséria, com um aumento de 4%, mais o aumento do IVA de 6% para 23%, trazem a marca dos milhões de euros de remunerações anuais atribuídas a esta gente impúdica e voraz.
Esta casta (quase todos responsáveis pelo estado em que os portugueses estão, e pelos sacrifícios que lhes exigem), para quem 45 000 euros por mês são uma ninharia, armam-se em paladinos das virtudes da economia de mercado, ao mesmo tempo que, sempre que podem, utilizam com despudor as instituições públicas por onde passam para se servirem delas. Braga de Macedo, também ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva, colaborador do primeiro-ministro no redesenho da diplomacia económica do actual governo e um dos escolhidos para o Conselho de Supervisão da EDP, enquanto presidente do Instituto de Investigação Científica Tropical, apoiou diversas exposições da artista plástica Ana Macedo, sua filha, em Maputo e em Lisboa e reservou-lhe um espaço no Instituto para «residência artística». É esta a noção de serviço público que nos oferece o ex-ministro do PSD. Está tudo dito sobre a choldra torpe a que Portugal chegou.
Enquanto tudo isto se passa, o governo, numa tentativa de desviar as atenções da pobreza para que arrasta os portugueses, vai produzir legislação espartana contra os fumadores, na linha do mais retrogrado fundamentalismo. Voltando a citar Eça de Queiroz: Temos ouvido cantar a democracia, berrá-la, soluçá-la: é tempo de a vermos demonstrar.
PS – O regime está podre. Está na hora do Partido Socialista, partido também responsável pelo estado a que isto chegou, abandonar a sua postura «conformista» e de falinhas mansas e passar à oposição. Dizem que Luís Amado, ex- -ministro dos Negócios Estrangeiros, fazia parte da lista de convidados para a EDP e não aceitou. Se assim foi, é um bom sinal. Esperar que este governo caia de maduro para o substituir neste rotativismo apodrecido significa cavar a sepultura deste regime.
Jurista, escreve à segunda-feira



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