Por André Abrantes Amaral, publicado em 17 Dez 2011 - 03:00 | Actualizado há 9 semanas 5 dias
A Europa liquidou-se quando matou a diversidade e destruiu a sua riqueza interior. Para este mal não há euro que lhe valha
A vida não reflectida, não é digna de ser vivida.
George Steiner
Até à Segunda Guerra Mundial existiam na Europa estados com muitos povos, e povos que se distribuíam por muitos estados. A Europa tinha, acima de tudo, cidadãos que se misturavam, mudavam de uns países para os outros e não se agarravam a qualquer deles. Eram judeus, ciganos, húngaros, checos, polacos, bascos, povos que pertenciam a algo mais profundo que o poder político e militar. Claro que hoje há quem saia do seu país e vá para outro. Mas é do seu país que sai, e não de um local onde vive. Se antes as pessoas estavam, à superfície, politicamente unidas pelo poder do rei, existia também, como de uma forma subterrânea, uma ligação cultural e espiritual com as que viviam em estados diferentes. Em Portugal, um dos Estados-nação mais antigos do mundo, temos dificuldade em perceber o fenómeno. Mas ele existe e marcou a Europa durante séculos.
Em 2004, George Steiner, também ele um judeu, nascido em Paris, filho de pais austríacos e a viver no Reino Unido, proferiu uma palestra sobre a Europa (“A Ideia de Europa”, publicado pela Gradiva). Nesta sua intervenção, Steiner (à altura um dos últimos europeus vivos), procurou definir a Europa através do café, como local de conspiração, convívio e conversa que só existe neste continente; da paisagem demasiado humana que permite atravessar o continente sem dificuldades de maior e dos nomes que damos às ruas e às praças, em memória do passado. Referiu também a herança de Atenas e Jerusalém que permitiu aos europeus não apenas descobrir, mas questionar. De como o diálogo com o Deus judaico conduziu os europeus à ideia de consciência social e de justiça como algo mais valioso que o orgulho e a honra. A arte, a arquitectura, a filosofia, a literatura, a música europeias têm disto tudo um pouco. A busca do belo, da harmonia a partir da audácia que tudo questiona, que nada encara como perene. A consciência de que a sua própria existência tem um fim é, aliás, o último axioma que Steiner utiliza para definir a Europa.
Foi esta diversidade que desapareceu no século xx. Foi um processo longo e lento, talvez começado quando Napoleão uniu os franceses à volta do Estado e os europeus contra os franceses. A partir daí, a história europeia tem mais a ver com estados que com povos. O processo culmina na Segunda Guerra Mundial, com o extermínio dos judeus e o fim da diversidade. Do espírito de comunhão que nos unia a todos. Com as duas grandes guerras, a Europa não perdeu apenas os impérios, mas a sua força interior. A diversidade que a unia. A capacidade de conseguir ser uma casa para tantos. A riqueza espiritual que nos obrigou a reflectir, a questionar, a descobrir novos conceitos, sistemas políticos, filosofias que mudaram a vida. Se antes existiam monarcas com laços familiares, a par do espírito comum que unia os europeus, restam hoje políticos de topo que procuram juntar cidadãos que pouco têm a ver uns com os outros. E fazem--no da única forma que conhecem: através de uma união política que enfrente os desafios que vêm de fora. A Europa já não desafia o desconhecido, mas segue os que copiaram o que ela inventou. Esta ferida europeia é mais grave que a do euro e não se resolve numa cimeira.
Voltando a Steiner, o que ele nos propõe é o regresso ao espírito que outrora fez a Europa. Perante os desafios do fanatismo islâmico, do autoritarismo chinês, poderá a Europa apontar soluções? Poderão aqui surgir as respostas aos problemas que nos afectam no início deste século? Hoje, que só se fala de invenções técnicas, esquecemos a mudança que as correntes filosóficas trouxeram ao mundo, permitindo saltos gigantescos no desenvolvimento humano. Quem sabe, a Europa não pode continuar a ser um lugar de reflectir, tornando-nos a todos dignos de viver.
Advogado
Escreve quinzenalmente ao sábado



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