Mosteiro dos Jerónimos
Morgaine, no Flickr.com / Licença Creative Commons 2.0Por Ana Sá Lopes, publicado em 27 Jan 2012 - 03:00 | Actualizado há 3 semanas 6 dias
Com esta submissão do governo à Igreja, Afonso Costa é enterrado duas vezes
O governo decidiu extinguir o 5 de Outubro e o 1.o de Dezembro. Sejamos honestos: não existe em nenhuma das datas um imperativo de manifestação comemorativa popular que transforme a dispensa do trabalho numa necessidade colectiva. Já a terça-feira de Carnaval – que não é feriado – tem uma força popular tal que a tentativa de o extinguir de Cavaco Silva em 1993 levantou um clamor que acabou por contribuir para o fim do cavaquismo.
Até ao 25 de Abril, a República teve o significado simbólico de servir comemorações alternativas aos salazarentos 28 de Maio ou 10 de Junho. A romagem às campas dos republicanos, a coroa de flores na estátua de António José de Almeida, tiveram in illo tempore uma enorme importância simbólica. Depois do 25 de Abril, o simbolismo desvaneceu-se. Jorge Sampaio, quando ocupou o cargo de Presidente da República, esforçou-se por recuperar o 5 de Outubro, mas nem isso levou as massas a ocupar as ruas.
A República já não comove praticamente ninguém – o que é natural, por ser um dado adquirido e irreversível. É assim uma espécie de velho casamento feliz, que dispensa manifestações de exultação pública.
Quanto ao 1.o de Dezembro, só tem ainda algum significado simbólico para a minoria monárquica que hoje “ocupa” esse feriado como antes os democratas republicanos “ocupavam” o 5 de Outubro. É difícil que o fim do 5 de Outubro e muito menos o fim do 1.o de Dezembro provoquem qualquer espécie de comoção nacional por razões políticas – como poderia acontecer se o governo decidisse, por absurdo, eliminar o 25 de Abril, o aniversário do golpe de Estado que acabou com a ditadura recente e que (por enquanto) é uma data de comemorações populares de alguma dimensão.
O que é mais penoso nesta questão – independentemente do resto – é a escandalosa submissão do governo à Igreja Católica, o seu desejo de agradar a todo o custo em tempo de guerra, aceitando sem pestanejar uma espécie de acordo 50/50, em que por cada feriado católico é eliminado um civil. Na prática, o país civil fica com menos feriados que o católico. Se há comemorações da Igreja Católica que se tornaram símbolos universais – o Natal e a Páscoa –, é difícil, até para os católicos, entender a manutenção do 8 de Dezembro numa altura em que o 5 de Outubro é abolido. A decisão é, no mínimo, paroquial e o pobre Afonso Costa é enterrado duas vezes.
E há outra questão simbólica: tanto quanto se tinha percebido, o que a UGT tinha ganho na Concertação Social passava pela manutenção do feriado do 5 de Outubro. Afinal a derrota foi mesmo em toda a linha.



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