Por Nuno Ramos de Almeida, publicado em 4 Nov 2011 - 03:00 | Actualizado há 29 semanas 9 horas
Todo o processo de construção europeia sofre de um pecado original: as elites pretendem decidir o que garantem fazer bem às populações do continente sem as consultar. A democracia é um risco que não querem correr. Viu-se isso durante o processo de aprovação do Tratado de Lisboa, em que vários países, inclusive Portugal, foram obrigados a não fazer um referendo.
Mais que a crise e a implosão da moeda única, Merkel e Sarkozy temem o mau exemplo grego ao ameaçar referendar uma política económica. As lideranças europeias querem garantir que a política de austeridade que escolheram para o continente seja considerada a única solução. Impedir a discussão democrática da economia é a forma de conseguir este propósito. A manobra é difícil, porque há cada vez mais gente a perceber que este rumo só serve interesses muito particulares dos muito ricos e lança os povos da Europa na pobreza. É por isso que os governos da Alemanha e da França, caso não consigam derrotar a ideia do referendo em Atenas, vão querer fazer da Grécia um exemplo. Pretendem castigar os gregos de modo que nenhum povo se lembre de querer decidir a sua vida.
É uma política cega e suicida. As elites que mandam na Europa não percebem que o falhanço da União Europeia não se deve à falta de liberalização dos capitais e à ausência de abertura dos mercados. Há liberalização e mercados a mais. O que falta à Europa é uma dimensão democrática. A UE só sobreviverá se os seus povos a construírem em comum. Os mercados apenas vão gerar injustiça, o ódio e talvez a guerra.
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