Por Tomás Vasques, publicado em 30 Jan 2012 - 03:00 | Actualizado há 3 semanas 3 dias
É neste quadro de decadência europeia que se torna evidente o desaparecimento do pensamento dos socialistas e social-democratas agrupados na Internacional Socialista
A Europa desmorona-se, a cada dia que passa, às mãos de quem a dirige politicamente – uma direita conservadora, ultra liberal, com epicentro em Berlim, e um ajudante de campo em Paris. A Grécia, a quem foi aplicada uma dose cavalar de empobrecimento, em curto espaço de tempo, está nos cuidados intensivos, como não podia deixar de acontecer. Só ainda não lhe desligaram a máquina dos euros com receio do contágio da doença a economias mais “pesadas” como a Espanha e a Itália, se não mesmo a França, mas já avançaram com a ideia peregrina de o país de Sócrates, Platão e Aristóteles se deixar ocupar pacificamente pelos “bárbaros do Norte” - os germânicos -, os quais se mostraram disponíveis para lhes gerir o Orçamento de Estado a troco do apoio financeiro. Portugal, onde se aplica a mesma receita que tão maus resultados tem dado, está na calha, entre as urgências e os cuidados intensivos, apesar do ministro das Finanças, de vez em quando, em momentos de alucinação, falar em “ponto de viragem”, quando se sabe que precisamos de novo “resgate”, ainda mais volumoso, para não cairmos na bancarrota; a Espanha, com mais de 5 milhões de desempregados, está a percorrer o mesmo caminho, para não falar na Itália. Nos últimos dois anos, sob a batuta alemã, tudo foi feito para chegarmos aqui. E o que é caricato, nesta situação, são as vozes de quem não vê um palmo à frente do nariz, aqui dentro de portas, a pedir mais austeridade, mais empobrecimento dos portugueses, mais horas e dias de trabalho e menos férias, menos contestação sindical e mais cortes nas despesas sociais essenciais, que ao Estado compete assegurar.
Os resultados desta paranóia começam a ser tão notórios, o abismo está tão próximo, que já começam a aparecer sinais da necessidade de retroceder neste caminho que nos conduz a um prolongado inverno europeu, à recessão e à miséria. Christine Lagarde, a patroa do FMI, juntou a sua voz a muitas outras, no Fórum Económico Mundial, em Davos, para dizer que os países europeus “têm flexibilidade para promover o crescimento da economia da Zona Euro”, dando sinais de recear as consequências recessivas das severas políticas de austeridade até agora cegamente aplicadas. No mesmo sentido, é significativo que a Cimeira Europeia, que decorre hoje, se debruce sobre o crescimento económico e a política de investimento. Não vão, provavelmente, os dirigentes europeus decidir nada, como é costume, mas só a “preocupação”agendada já é um sinal. Por cá correm notícias de que proeminentes personalidades do cavaquismo defendem “que o Governo deve substituir o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que vêem como ‘um ultraliberal’ que está a ‘dar cabo’ do modelo social e económico construído após o 25 de Abril, no qual os três governos de Cavaco (1985-1995) tiveram um papel crucial”. Estes são sinais de que o caminho trilhado pelo governo de Passos Coelho não tem saída à vista.
É neste quadro de decadência europeia que se torna mais evidente o de-saparecimento completo de pensamento e de propostas dos socialistas, trabalhistas e social-democratas agrupados na Internacional Socialista. A isso não deve ser estranho o facto da presidência dos socialistas europeus estar entregue a George Papandreou, o ex-primeiro-ministro grego deposto pela senhora Merkel, nem as consequências da “terceira via” de Tony Blair, que quando no governo ocupou o espaço político da direita e, hoje, é pago a peso de ouro como conselheiro do governo do Cazaquistão. A Internacional Socialista não existe. Os socialistas portugueses, espanhóis e britânicos, por exemplo, que perderam eleições recentemente, estão desorientados ideológica e politicamente, sem um fio de pensamento minimamente estruturado, como se estivessem à espera de Godot. Comunistas, verdes, bloquistas e afins estão embalsamados em mausoléus. A Europa está à deriva, sem costa à vista.
Jurista, escreve à segunda-feira



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