Por Pedro Braz Teixeira, publicado em 22 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 13 semanas 2 dias
Os gregos querem o impossível: continuar no euro e votar em partidos que estão contra os termos da ajuda externa
O sistema eleitoral de um país é uma das peças fundamentais do sistema partidário desse mesmo país. Na Grécia existe, desde 1990, um sistema de “proporcionalidade reforçada”, que facilita a formação de maiorias absolutas de um só partido. Isto conduziu a um sistema partidário com dois partidos hegemónicos, a Nova Democracia (conservadores) e o PASOK (socialistas), que dominaram totalmente o espectro partidário grego. Desde 1993 que a soma de votos nestes dois partidos tem oscilado entre 77% e 87% do total.
O sistema eleitoral português é menos amigo das maiorias absolutas de um só partido, mas mesmo assim a percentagem de votos obtidos pelo bloco central português tem oscilado entre 72% e 80% desde 1987. As eleições de 2009 foram claramente de protesto, com aquela percentagem a baixar para 66%, recuperando ligeiramente para 67% em 2011. Neste contexto, é extraordinário o que as últimas sondagens gregas nos dizem. Os dois maiores partidos verão a sua votação cair abruptamente, para valores entre os 39% e os 42%, devido à queda do PASOK, que pode obter apenas 8% dos votos. É destes partidos que depende o apoio parlamentar para concretizar as condições subjacentes ao novo pacote de ajuda, finalizado na madrugada desta segunda-feira. Mas se os dois juntos deixarem de ter a maioria dos deputados, como prosseguir?
A última sondagem, da GPO, revela uma queda brutal na popularidade do primeiro-ministro tecnocrata, suplantado pelo líder da Nova Democracia, o que, teme-se, seja sobretudo fruto da demagogia deste último.
Talvez o dado mais surpreendente das sondagens seja que 77% dos gregos querem permanecer no euro “a todo o custo”. No entanto, parece que se preparam para votar em partidos que, na prática, inviabilizam a continuação da Grécia no euro. Mas imaginemos que até às eleições há alguma recuperação do PASOK, de modo que este mais a Nova Democracia conseguem uma maioria absoluta no novo parlamento. Isto não constitui nenhuma garantia, bastando recordar que numa votação recente estes dois partidos foram forçados a expulsar das suas fileiras (mas não do parlamento) mais de 40 deputados no total.
Ou seja, estamos numa corrida contra o tempo, em que se podem ganhar algumas semanas aqui, mais outras acolá, mas dificilmente se poderá evitar o desfecho mais negativo. Algures nos próximos meses irá produzir-se uma ruptura nas negociações, a ajuda à Grécia será interrompida, a dívida deixará de ser paga. O pior disto tudo é que o mais provável é isso decorrer num ambiente nada cordato, constituindo um obstáculo a uma negociação da saída da Grécia.
Uma saída caótica destruirá a ilusão europeia de que seria possível construir um muro de contenção do contágio. Isso seria sempre impossível, mas será ainda mais complicado se a retirada se der de forma descontrolada. Aliás, imagine-se a troika a negociar com um parlamento em que a maioria dos partidos está contra ela e em que estes mesmos partidos não se entendem entre si. A saída da Grécia do euro parece assim inevitável, com fortes consequências para os países periféricos, em particular Portugal.
Investigador do NECEP da Universidade Católica



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