Por Rui Costa Pinto, publicado em 24 Dez 2011 - 03:00 | Actualizado há 8 semanas 5 dias
Chegou a hora de estudar estas transacções multimilionárias, no sentido de ajudar a decompor as parcelas que nos conduziram a uma crise financeira sem precedentes
A ofensiva de internacionalização das grandes empresas de capitais públicos assumiu contornos de política de Estado a partir de 1995. Hoje a EDP e a PT são controladas por capitais estrangeiros.
Enquanto o país permanece em desgraça, chegou a hora de estudar mais de perto estas transacções multimilionárias, no sentido de ajudar a decompor as parcelas que nos conduziram a uma crise financeira e económica sem precedentes.
Os exemplos da EDP e da PT, entre outros, oferecem verdadeiros estudos de caso do clima de negócios de Estado que marcou os últimos anos. É indispensável saber quanto nos custou esta aventura estratégica que resistiu, bem à portuguesa, apenas um pouco mais de uma década, da tomada de posse de António Guterres ao governo liderado por Pedro Passos Coelho.
Depois da investida da empresa de telecomunicações portuguesa em terras brasileiras, e da recusa da OPA de Belmiro de Azevedo, José Sócrates foi obrigado a dar luz verde à venda da participação na luso-brasileira Vivo à espanhola Telefónica, em Julho de 2010, por 7,5 mil milhões de euros, no momento em que as dívidas da empresa liderada por Henrique Granadeiro rondavam os 800 milhões de euros.
Este negócio tem de ser recordado no momento em que o governo acaba de anunciar a venda de 21,35% da EDP à empresa China Three Gorges por 2,69 mil milhões de euros, acompanhada por promessas de mais 6 mil milhões de euros, sem esquecer que o endividamento da empresa liderada por António Mexia atingia os 14 mil milhões de euros.
Desde logo, é evidente que tanto a PT como a EDP apresentavam endividamentos gigantescos no momento em que foram alienadas fatias importantes do seu capital. De seguida, é preciso questionar se o saldo entre o esforço e o investimento levado a cabo pelo Estado para reforçar a internacionalização de ambas as empresas foi compensado pelo encaixe proporcionado pela venda dos respectivos activos. É que agora resta uma participação do Estado na eléctrica de 4%.
Obviamente, não está em causa a questão dos centros de decisão, nem qualquer princípio dogmático em relação à privatização, mas sim a forma como todo o processo que se anunciou de longo prazo morreu na praia à primeira oportunidade, ou melhor, à primeira dificuldade.
Ninguém tem dúvidas que os lóbis de interesses rosa, laranja e azul e amarelo, que gravitam à volta do Estado, estiveram tão de acordo com as andanças internacionais da PT e da EDP como estão de acordo com as alienações que ocorreram posteriormente. E que, certamente, se estão nas tintas para o controlo da tal estratégia de internacionalização da economia portuguesa, então considerada vital para o futuro do país.
Fica a percepção de que este alegado plano ou foi mal escorado, ou acabou por ficar limitado ao curto prazo, alimentando a banca através dos dispendiosos project finance e inundando os escritórios de advogados do regime com pedidos de pareceres e de minutas de contratos elaborados a peso de ouro.
Num prazo de 15 anos, passamos de investidores no exterior a presas fáceis de capitais estrangeiros, ainda por cima a preço de saldo, revelando que há um bloco central de interesses que continua activo e impune.
Se o dinheiro já não tem cheiro há muito tempo, sejam alemães, sejam brasileiros, espanhóis, líbios ou até chineses a comprar empresas portuguesas, resta a legitimidade de saber quem ficou a ganhar mais: o país, os lóbis financeiros, os intermediários ou os consumidores portugueses?
Escreve ao sábado



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