Por Jorge Bateira, publicado em 17 Nov 2011 - 04:00 | Actualizado há 27 semanas 1 dia
Os devedores são produzidos pelos credores. A relação que permitiu a dívida de uns, permitiu o crédito de outros. Mais que o pagamento deve-se exigir a mudança dessa relação
Discursando no congresso do seu partido, Angela Merkel declarou: “A tarefa da nossa geração é completar a união económica e monetária e construir, passo a passo, a união política na Europa.” Também falou da necessidade de um governo económico que controle os orçamentos dos estados-membros e imponha multas aos prevaricadores. Merkel continua a exibir a ignorância de sempre quanto às razões do endividamento da periferia da zona euro, com destaque para a dívida privada. De facto, nunca é de mais insistir que o excedente comercial da Alemanha tem sido gerado através do comércio intra-comunitário. Dito de outra maneira, os défices comerciais da periferia da zona euro são a contrapartida do excedente comercial alemão. Não deveria ser difícil perceber que para haver um devedor tem de haver um credor. Acontece que esta relação entre devedores e credores, interna e necessária, é sistematicamente ignorada por Merkel, pelos restantes líderes europeus e também pela esmagadora maioria dos jornalistas e comentadores que dominam o espaço mediático em Portugal. Ocultar a relação umbilical entre os devedores e os credores da zona euro é condição essencial para que o discurso da culpabilização seja eficaz. Acontece que os saldos comerciais das economias da zona euro são determinados pelas estruturas produtivas que cada país desenvolveu, pela produtividade que as suas empresas conseguem alcançar, pela inflação estrutural que os caracteriza, pelas instituições e pela cultura que a sua história gerou. Dito de uma forma abreviada, Grécia, Itália, Espanha e Portugal (a Irlanda é um caso muito específico) não têm economias que aguentem a concorrência dos produtos alemães e a abertura comercial desregulada aos produtos chineses. Consequentemente, as economias mais débeis da zona euro endividaram-se junto dos bancos das economias mais fortes. E estes promoveram activamente esse endividamento. Por isso não faz qualquer sentido uma vigilância punitiva sobre o orçamento de cada país como se o excedente orçamental de alguns países não estivesse relacionado com os défices de outros. Como se os défices orçamentais fossem exclusivamente determinados pelas decisões dos governos. Na realidade, as receitas dos impostos nos países da periferia do euro dependem do crescimento das suas economias, que, por seu turno, dependem do respectivo saldo comercial, em boa parte intracomunitário. Se, de facto, a Alemanha pretendesse resolver os desequilíbrios estruturais da zona euro, e suas repercussões no orçamento e na dívida (pública e privada) dos países da periferia, teria de (1) aceitar que a política comercial da UE desse alguma protecção às indústrias dos países da periferia, (2) alargar o seu mercado interno através de aumentos salariais, (3) pôr sob observação os défices e os excedentes comerciais na zona euro e promover medidas correctivas nos dois sentidos. Porém, isto significaria o abandono pela Alemanha do seu modelo mercantilista. Impensável! O euroliberalismo não reconhece que para haver um devedor tem de haver um credor e que ambos são responsáveis pelos desequilíbrios na zona euro. Por isso, mesmo que a Alemanha consiga pôr o BCE a financiar a Itália, a Espanha e os restantes países da zona euro, os desequilíbrios económicos estruturais que estão na raiz da presente crise permanecem. Como permanece o empobrecimento imposto aos devedores através de uma política económica errada e punitiva. Por quanto tempo, não sabemos, mas o golpe de misericórdia na ignorância e na crueldade institucionalizada acabará por chegar. Quanto mais cedo melhor.


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