Por Nuno Amaral Jerónimo, publicado em 11 Fev 2012 - 04:00 | Actualizado há 14 semanas 6 dias
Quando se quer encarar a realidade de frente chamam-se os bois pelos nomes. Quando não, chamam-se nomes pelas costas. Outra alternativa é chamar as pessoas pelos nomes. Pelos próprios ou pelos de família. Ao designar os primeiros nomes das pessoas por “próprios” os portugueses deixam bem claro que os apelidos são emprestados. Podem usar-se, mas enquanto não se pertencer à geração mais velha da família são do pai ou do avô.
A ciência que tenta explicar as personalidades a partir dos nomes esquece a aleatoriedade das cabeças dos pais e os humores da burocracia. A lista oficial de nomes permitidos pela lei portuguesa (disponível no site do Instituto dos Registos e do Notariado) alberga nomes como Dirque, Gumersindo, Carísia ou Ursiciana. A Luciana Abreu escusava de inventar Lyonces.
Nessa lista há exclusões incompreensíveis. É possível dar às crianças nomes de algumas flores – Rosa, Margarida –, mas não se aceitam Gerberad ou Dentes-de-Leão. É permitido adjectivar com qualidades – Clemente, Pio –, mas não com defeitos, como Invejoso ou Glutão. Há gerúndios – Armando –, mas nem todos os verbos são admitidos, nem mesmo sinónimos – por exemplo, Fabricando. E os nomes serão realmente denotativos? Uma Flor nunca terá chulé? Contra uma Inocência nunca haverá provas em contrário? E Sara, da palavra hebraica que significa princesa, só deve ser usado por judias monárquicas? O nome Nuno é um caso curioso. Só existe na língua portuguesa. Não tem nenhum nome correspondente, pelo menos entre os idiomas mais conhecidas. É típico de Portugal, é verdade, mas isso também são a cunha e a tuberculose.
Assistente da Universidade da Beira Interior
Escreve ao sábado



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