Por André Abrantes Amaral, publicado em 31 Dez 2011 - 03:00 | Actualizado há 7 semanas 5 dias
Termina hoje o ano em que o Ocidente pôs as mãos na consciência e se deu conta de quanto custa a interferência dos estados nas decisões económicas das pessoas
Há um ano, Robert Kaplan, jornalista norte-americano e assessor do Departamento de Defesa dos EUA, publicou “Monsoon” (Random House). É um livro sobre os equilíbrios estratégicos no oceano Índico e o futuro do poderio norte-americano naquela região. Para Kaplan, as águas que outrora Afonso de Albuquerque quase conseguiu dominar voltam a ser vitais porque banham uma série de países que fazem fronteira com a China. Um país com um regime que, se em 1989 tremeu quando estudantes fizeram frente a uns tanques, se está agora a tornar uma potência mundial. Compra empresas pelo mundo fora, dívida pública europeia e, claro está, armas.
Não há norte-americano que não se preocupe com o investimento chinês nas forças armadas. Se há países que com dimensão são por natureza potências mundiais, a China é um deles. No mundo globalizado em que vivemos, onde os negócios estão interligados, numa comunhão que integra já não apenas a Europa, os EUA e o Canadá, mas todas as regiões do globo, a dimensão da China conta. Conta ao ponto de um problema chinês ser também um problema nosso. E a China, ao contrário do que muitos possam supor, tem demasiados problemas.
Gordon G. Chang é um advogado chinês, há décadas a viver nos EUA, que tem alertado para o iminente colapso da China. No seu livro “The Coming Collapse of China”, editado em 2001, Chang prevê que os quatro grandes bancos chineses, todos eles propriedade do Estado e endividados até à medula por satisfazerem os interesses privados da elite comunista, podem ser os grandes causadores da catástrofe que se adivinha naquele país. Não se trata apenas da corrupção, tanto mais inevitável quanto mais o Estado intervém na economia, mas dos variadíssimos projectos megalómanos que estão ser levados a cabo na China, sem qualquer retorno. Cidades desertas que custaram balúrdios. Construções totalmente inúteis que nunca serão pagas e cujas perdas nunca serão contabilizadas, pois onde não há escrutínio tudo se apaga ao ponto de nunca ter existido. Conforme nos explica Chang, 2% a 3% do crescimento económico chinês são excesso de produção. Produtos que jamais serão consumidos, que de nada servem, mas consomem recursos, dinheiro, tempo e energias que seriam mais bem aplicados noutras actividades. Excessos que pressionam a inflação. Gastos supérfluos que criam bolhas, cujo rebentamento terá um impacto talvez maior que aquele que nos atinge neste momento.
Os comunistas em Pequim têm um medo de morte de perder o poder. Por isso, além de estimularem o sentimento nacionalista, controlam tudo, ignorando as correcções que, em qualquer sociedade onde o Estado intervenha pouco, são feitas através de um diálogo diário e silencioso entre consumidores e produtores. Como reconhecer o erro é, naquele regime doentio, meio caminho andado para ser posto em causa, o Partido Comunista chinês joga tudo por tudo numa fuga em frente. O tal passo em frente em direcção ao precipício. Não há falências porque é mais fácil ignorar as regras de contabilidade. Mais fácil, mas mais doloroso. Para a China e para nós.
Termina hoje o ano em que o Ocidente pôs as mãos na consciência e se deu conta de quanto custa a interferência dos estados nas decisões económicas das pessoas. O ano em que contabilizámos o dinheiro que se gastou e a riqueza que não se produziu, porque os decisores políticos planearam como a vida na Europa devia ser orientada. No ano novo é tempo de recearmos o que vai acontecer na China, fruto desses mesmos erros, mas numa escala maior. O regime chinês tem um dilema: para sobreviver precisa de estabilidade que depende de um forte crescimento económico, que, por ser artificial, gera instabilidade. Em 2012 a China pode complicar mais com os seus problemas que com a sua força. A história não acabou em 1989, nem em 2008. Na verdade, ainda tem muitas reviravoltas para dar.
Advogado
Escreve quinzenalmente ao sábado



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