Por Tiago Mota Saraiva, publicado em 28 Jan 2012 - 04:00 | Actualizado há 16 semanas 6 dias
O recente lamento de Cavaco Silva sobre as suas economias domésticas não é das suas declarações mais chocantes. Apelar ao “desprendimento” e à “determinação” dos mais jovens como os que “há 50 anos assumiram a sua participação na Guerra do Ultramar”, ver as mulheres como “um pilar da família, da protecção das crianças, que fazem milagres com o orçamento limitado das casas” ou saber que na sua ficha da PIDE, mais que declarar- -se integrado no sistema, se sentiu na obrigação de observar que não privava com o sogro casado “em segundas núpcias”, revelam um cidadão de pouca cultura, com uma ideia de país e sociedade de triste memória, que não gosto de ver a representar o meu país.
Contudo, o lamento de Cavaco provocou uma fractura irreparável com os que sempre o apoiaram.
A declaração fez cair a máscara do professor sério e rigoroso – Cavaco não recebe 1300,00€/mês mais uns pozinhos, como pretende fazer crer –, e indignou o país – em que a maioria não aufere por ano o que a família Silva aufere por mês – que se ache a viver em dificuldades.
Se é certo que, à nebulosa que paira sobre os seus negócios no BPN ou aos mais diversos escândalos que rebentam sobre os que promoveu na política, Cavaco sempre respondeu com silêncios até que a notícia passe, não é crível que o mesmo resulte desta vez. O Presidente da República, que depois da monumental vaia de Guimarães se recolheu a Belém, pode continuar a não ter vida fácil quando sair à rua e não será a sua segurança musculada que o livrará deste pesadelo. A reacção pateta dos seus fiéis tratando o problema político como uma impossibilidade jurídica não parece estar a afectar a onda gigante de cidadania que pretende ajudar o presidente a terminar o mandato com a dignidade que lhe resta.
Arquitecto
Escreve ao sábado


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