Vinte anos depois do reconhecimento da Croácia pela CEE, o embaixador em Lisboa recebeu o i para falar sobre a adesão à UE em altura de crise
A 15 de Janeiro de 1992, três meses depois de a Croácia se proclamar independente da Jugoslávia, a então Comunidade Económica Europeia reconheceu o país. Domingo marca o 20.o aniversário e o i conversou com o embaixador croata em Lisboa, Zeljko Vukosav, agora que o país dá os retoques finais na adesão à União Europeia, que deverá acontecer a 1 de Julho de 2013. Há umas semanas, um jornal britânico perguntava em tom jocoso se os croatas saberão algo que o resto dos europeus não sabem. Mas apesar da crise, os croatas continuam empenhados em entrar na UE. No dia 22, decidem se aceitam ou não juntar-se aos 27.
Este marco vem coincidir com a adesão da Croácia à UE.
Sim, e é uma boa oportunidade para falar sobre o que aconteceu. Vivemos grandes tumultos e, no pós-guerra, tivemos de reconstruir o país, não só fisicamente, mas também dar início a um processo de reconciliação, sobretudo com a Sérvia, que esteve por trás deste conflito. Muito aconteceu antes de 15 de Janeiro de 1992. Há muita gente que acha que, por trás do conflito, houve algum tipo de força nacionalista ou tensões religiosas.
Que não foi o caso?
Nós já tínhamos problemas nos anos 60 e 70. A Croácia era a galinha dos ovos de ouro da federação e a maneira como o dinheiro de cada república era redistribuído pelo banco federal seguia também factores políticos, e muita gente na Croácia sentia que isso não estava a ser justo. O mesmo acontecia em termos de tomada de decisões políticas comuns: estava tudo centralizado em Belgrado – definida como centro, porque a Sérvia era o maior país – e havia a sensação de não haver democracia suficiente, por vivermos num sistema político de partido único. Isso levou a que, em 1971, nascesse um movimento na Croácia chamado Primavera Croata.
Faz lembrar a Primavera Árabe.
Sim, é uma terminologia engraçada de analisar na actualidade. Tivemos esta Primavera Croata em busca de mais democracia, de processos de decisão menos centralizados, de mais direitos humanos, de mais participação de cada república. Este processo foi liderado sobretudo por estudantes e derivou do momento europeu de 68, em que houve tumultos em França e noutros países. Infelizmente, a governação federal de Tito reagiu mal a estes eventos. O protesto foi declarado uma revolta nacionalista que tinha de ser cortada pela raiz e os seus líderes foram presos. Depois ficou tudo mais ou menos calmo durante uns anos. A reacção foi tardia.
Que reacção foi essa?
A constituição federal foi alterada e trouxe mais poder às seis repúblicas, isto em 1974 – quando vocês aqui em Portugal tiveram a vossa revolução, o que é uma boa coincidência –, e uma das coisas mais importantes da nova constituição foi o direito de cada república à cessação: se não quiséssemos ficar na federação, podíamos sair, e nada foi dito sobre as condições para isso ser feito.
E foi quando a Croácia quis sair que apareceram os problemas?
Sim. Mais tarde, quando a Croácia e a Eslovénia quiseram sair desta federação injusta, a Sérvia disse que só podíamos se ela dissesse sim, quando isso não estava escrito em lado nenhum. Depois vieram os protestos no Kosovo, a subida dos preços do crude no mercado mundial, problemas com bens de consumo. E as coisas foram piorando até à dissolução. Entretanto, Tito morreu. Muitas pessoas viam-no como único factor da integração da Jugoslávia, o que não era bem assim: o processo já estava em marcha.
E em 1989 cai o Muro de Berlim.
E com isso surgem necessidades de democratização também nessa parte da Europa a que chamam Balcãs.
A Alemanha reconheceu a independência da Croácia antes da CEE.
Formalmente, a Islândia foi a primeira a reconhecer, mas a Alemanha esteve entre os primeiros. Na altura, até havia muitos europeus a dizer que os alemães estavam a pressionar demasiado a Europa para que fizesse esse reconhecimento. Entretanto, a Croácia e a Eslovénia, que já estavam a quebrar a sua posição na federação, propuseram que fosse criada uma confederação, e dissemos: “Nós tratamos das nossas coisas, mas podemos ter algumas coisas comuns, como federação.” Isto não foi aceite e depois a CEE fez uma oferta que, penso, é pouco conhecida.
Que oferta foi essa?
Ofereceu à Jugoslávia o estatuto de membro da União Europeia. Ou seja, nós devíamos ter sido o primeiro membro, e não o último (risos). É uma ironia histórica.
E a federação voltou a não aceitar?
Eles ofereciam um pacote de ajuda económica para resolver os problemas da Jugoslávia. Mas, novamente, a liderança federal recusou e as tensões continuaram a aumentar. Primeiro, na Eslovénia tentaram tomar o controlo da alfândega e das fronteiras, a famosa guerra dos Dez Dias. Mas a Eslovénia foi menos problemática, porque não era um país de minorias, era bastante homogéneo, ao contrário da Croácia, que tinha 10% de sérvios. Então, o exército entrou na Croácia – tínhamos nós proclamado a independência em 1991. A Sérvia usou o pretexto de ter de proteger a sua minoria e começaram os conflitos. Não era possível terminar esta transição política de forma pacífica e sabemos quais foram as consequências do conflito: 30 mil pessoas morreram, 180 mil casas foram destruídas e há quem diga que gerou prejuízos de 33 mil milhões de euros, o que é muito dinheiro.
E aí surgiu o reconhecimento da Croácia e da Eslovénia, em 1992.
Sim, e apesar da guerra e das suas consequências, a Croácia está bem colocada no ranking económico entre os países da Europa de Leste, talvez porque tínhamos um bom background da altura da Jugoslávia. Porque, ao contrário dos países por trás da Cortina de Ferro, sob domínio soviético, as repúblicas jugoslavas tinham iniciativa privada e, apesar de tudo, eram bastante abertas, tinham um sistema a meio caminho entre o Leste e o Oeste. Portanto, a transição para uma economia de mercado livre foi fácil e natural.
E 20 anos depois, a Croácia prepara-se para entrar na UE já em 2013.
Sim, o processo foi retomado em 2005 e finalizado no ano passado. Foi longo e exigente, e os critérios usados para medir foram muito diferentes dos grupos prévios de novos membros. A Croácia teve o processo mais exigente de todos para entrar na UE. Às vezes brincamos e dizemos que, se alguns países europeus fossem sujeitos agora ao mesmo escrutínio que nós, chumbavam [risos].
Entrar agora não é um tiro no pé?
Temos ouvido essa pergunta muitas vezes. Num jornal britânico até havia um título no outro dia: “Será que os croatas sabem alguma coisa que nós não sabemos?” (risos). Acho que são perguntas mal colocadas. Em primeiro lugar, não faz sentido entrar no processo, transformar uma sociedade inteira, adoptar regras de funcionamento comunitárias e depois dizer “agora já não queremos”. Isso seria ridículo. A Croácia tornou-se um país melhor para viver, mais democrático e transparente, também graças ao processo de integração. E para além disso, apesar de não estar na zona euro, a nossa moeda vai sofrer muito se o euro se desintegrar.
Então acha que a Croácia tem mais a ganhar do que a perder?
Absolutamente. E, por outro lado, se houvesse uma opção para ficar de fora, nós teríamos de ter recursos. Nós não somos a Noruega, que tem petróleo, gás, bacalhau (risos), para nos podermos dar ao luxo de dizer “obrigado, mas não”. Nem somos a Suíça, o banco do mundo. E até a Suíça fez contas a quanto perderia se entrasse na UE, até eles consideraram ser membros. A Croácia não pode ser uma ilha nesta parte da Europa.
E como vêem a hipótese de a Sérvia também vir a ser membro da UE?
Muito bem. Já o dissemos muitas vezes, será nossa prioridade ajudá-la de forma activa. Vimos de um sistema legal semelhante, somos o principal parceiro natural, até porque nós já cooperamos em várias outras áreas, como, por exemplo, no combate ao crime organizado.
A 22 de Janeiro, a adesão é levada a referendo na Croácia. As sondagens dão 60% ao “sim”. Acha que será assim?
Vamos ter o referendo, de facto, e aqui em Lisboa também, para os 150 croatas que vivem aqui – são tão poucos que nem se lhes pode chamar comunidade (risos). As sondagens mostram isso, o que não nos deixa muito relaxados. Desde o mês passado já caiu 1%, mas o referendo só terá sucesso se 51% dos que aparecerem para votar votarem a favor. Temos todas as razões para acreditar que vão dizer sim, até porque Portugal e outros países não podem proceder com a ratificação do tratado de adesão antes de os croatas dizerem se aceitam ou não (risos). Em todo o caso, o entusiasmo foi bem maior no início do processo. Muitos croatas acham que levou muito tempo, que haverá um lado negativo na adesão. E eu diria que continua a existir pouco conhecimento informado, imparcial e real, o que é um problema. Estamos neste processo não desde 2005, mas desde 1992. Passaram 20 anos... Se há pessoas que ainda não sabem o que é a Europa, é porque provavelmente não estão interessadas (risos).
O problema da informação sobre a UE não é só da Croácia, como se viu com o referendo ao Tratado de Lisboa...
Exactamente, lembra-se das respostas na rua? (risos) Eram poucos os que sabiam o que ia mudar e o tratado era um documento crucial.
Há pouco falava do conflito durante a dissolução da Jugoslávia. Como vê os julgamentos de Ratko Mladic e de Radovan Karadzic pelo TPI-J?
Achamos que é crucial que todos os responsáveis por crimes de guerra e atrocidades sejam levados a tribunal, porque isso traz às vítimas um pouco do conforto de que serão punidos. Sem isso seria difícil ter reconciliação entre os povos nessa parte da Europa. E também é um aviso, a potenciais conflitos no futuro, de que nenhum líder será poupado à sua responsabilidade, de que não podem fazer o que quiserem aos seus povos, de que não podem abusar da sua força militar e usá-la contra a sua população. É bom que existam estes tribunais internacionais para perseguir quem vai demasiado longe.
Com a adesão à UE, acha que as relações Croácia-Portugal vão melhorar?
Estou absolutamente seguro de que sim. As nossas trocas comerciais, actualmente, estão longe de me agradar, temos muito mais potencial bilateral. Os bens portugueses têm saída na Croácia; foi por isso que criámos, no ano passado, a Câmara do Comércio Luso-Croata e que, em breve, talvez no próximo mês, vamos lançar com a AICEP o programa “Rumo à Croácia”. Estou certo de que isto vai aumentar o interesse da comunidade empresarial. Depois temos o turismo a potenciar: os croatas são um povo marítimo, como os portugueses, que gosta de peixe, de vinho; o clima é semelhante, as cidades também, pelo menos na costa. É sempre bom ver que os portugueses voltam da Croácia com um grande sorriso, sobretudo havendo esta ideia errada de que a Europa de Leste é uma zona pobre, sem nada para oferecer. E nada mais normal que dois países que já na época dos Descobrimentos eram parceiros comecem a apostar na relação bilateral.



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