As ruas de Valência voltaram a encher-se de jovens. Já não protestam só contra a falta de dinheiro para a educação. Responsabilizam a delegada do governo e a polícia pela repressão violenta dos protestos anteriores
“Estavam a bater numa rapariga na estação do Norte e pus-me no meio, mas chegou logo uma onda de polícias de choque e golpearam-me um par vezes até que caí no chão, tentei mexer-me e bateram-me com o cassetete”, explicou Jorge Navarro Ibáñez de Sebandiano, de 19 anos, ao diário espanhol “El País”, quando questionado sobre o que se tinha passado na segunda-feira. “Uma vez no chão, puseram-me um joelho sobre os rins e eu, como tive há pouco tempo um problema renal, disse-lhe ‘por favor, aí não’. Tiraram o joelho e voltaram a pressioná-lo com mais força”, acrescentou. Este é um dos muitos testemunhos sobre a violência policial contra as manifestações do início da semana em Valência.
Ontem, milhares de estudantes voltaram a protestar nas ruas da cidade contra os cortes orçamentais na educação, mas também condenando a repressão da polícia. Com livros, apontamentos ou folhas em branco em punho, os jovens desceram nos últimos dois dias às ruas, mas, ao contrário do que aconteceu em protestos anteriores, a presença policial no centro da cidade é agora praticamente nula. De acordo com o diário espanhol “El País”, apenas uma carrinha estava estacionada à porta da câmara municipal na terça-feira e não houve incidentes. Já o saldo das manifestações anteriores é de 43 pessoas detidas e pelo menos 16 feridos.
Há dois dias, antes de chegarem à delegação do governo espanhol, onde Albert Ordóñez, presidente da Federação Valenciana de Estudantes, esteve reunido com Paula Sánchez de León – delegada do governo e acusada, juntamente com o comandante da polícia da região de Valência, Antonio Moreno, de estar na origem da violência policial contra os jovens –, alunos e professores concentraram-se à porta do Instituto Lluís Vives, onde afirmaram ter sido tratados como “terroristas”. Valência é uma das comunidades autónomas mais endividadas de Espanha e foi forçada pelo governo central do país a cortar nos serviços públicos para reduzir o défice. As medidas estão a ser alvo de uma grande contestação social e, ainda há dias, apareceram na internet imagens de uma escola em Alicante em que os alunos estavam a assistir às aulas enrolados em cobertores, dado que o aquecimento central foi cortado.
Hora e meia depois, Ordóñez disse que no encontro não tinha tentado que o governo se responsabilizasse pela actuação policial nos incidentes dos últimos dias, sublinhado que as forças de segurança do Estado são “intocáveis para o poder político”. “Neste país não existe justiça e a delegada disse-nos que para evitar a violência e os incidentes temos de comunicar os protestos e as manifestações”, afirmou.
Perante a repressão das forças de segurança, Sánchez de León explicou na manhã de terça-feira que o secretário- -geral dos socialistas valencianos, partido de oposição ao PP, no governo, Jorge Alarte, tinha pedido a abertura de um inquérito para determinar se houve “excessos” no comportamento da polícia, garantindo que, se a resposta fosse afirmativa, as responsabilidades teriam de ser “apuradas”. “O facto de um grupo de radicais ou determinadas pessoas se terem aproveitado de uma situação não justifica estes comportamentos”, afirmou a delegada do governo, deixando claro que planeava demitir-se e que ia retirar as queixas contra os estudantes acusados. “Não há uma ordem a partir de um gabinete. As decisões são tomadas por quem está nas ruas e, com base em critérios, a polícia actua”, disse ainda, afastando a sua responsabilidade directa na violência dos últimos dias.
Já o ministro espanhol da Justiça, Alberto Ruiz-Gallardón, defendeu na terça-feira a acção dos polícias. Afirmando que o governo defenderá sempre o direito à liberdade de expressão e manifestação, Ruiz-Gallardón defendeu, em declarações à rádio RNE, que em Valência os polícias foram “violentamente agredidos”. Questionado sobre se considerou que a reacção policial foi proporcional, Ruiz-Gallardón mostrou-se convencido de que se deve estudar cada caso mas deve dar-se sempre a presunção de actuação legítima às forças de segurança, que são as que garantem os direitos fundamentais dos cidadãos.



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