Ex-presidente checo morreu ontem durante o sono. Poeta e dramaturgo, foi um dos rostos da oposição ao comunismo
Nem todos os intelectuais se arriscam pelas suas ideias. Nem todos os poetas, dão peso político às suas palavras. Nem todos os dramaturgos se arriscam ao teatro político. E a maioria prefere afastar-se da intervenção cívica quando a mesma põe em causa a sua própria criação. Ontem de madrugada, morreu um desses intelectuais a quem as circunstâncias ditaram que tivesse de colocar o destino do seu país à frente dos seus desejos pessoais.
“A sua luta pela liberdade e pela democracia é tão inesquecível como a sua grande humanidade”, disse ontem Angela Merkel, a chanceler alemã que viveu grande parte da sua vida para lá do Muro de Berlim, na Alemanha Democrática.
Havel lutou anos com as mazelas que a prisão lhe deixou no corpo. A sua era uma doença crónica dos pulmões que se transformou em cancro devido aos muitos maços de tabaco que fumou ao longo da vida. Nos anos 90, os médicos removeram-lhe parte de um pulmão e em 2009, uma pequena cirurgia na garganta agravou os seus problemas respiratórios.
O homem que estudou dramaturgia por correspondência – porque o regime comunista o impediu de estudar na universidade devido ao facto de pertencer a uma conhecida família de tradição burguesa – enquanto trabalhava como ajudante de palco no Teatro da Balaustrada, escreveu a sua primeira peça de teatro aos 27 anos, “Festa no Jardim”, uma peça de teatro do absurdo que é, ao mesmo tempo, uma crítica à burocracia do comunismo que retira a identidade a quem a serve.
Cinco anos depois, veio a Primavera de Praga, por instantes, os checoslovacos acreditaram que poderiam libertar-se da subjugação a Moscovo. Durou pouco a estação, passando directamente para o Inverno com os tanques russos nas ruas de Praga e Havel a ser banido do teatro, a ter de arranjar trabalho numa fábrica de cerveja e a tornar-se muito mais activo politicamente. E a ir parar às prisões do regime comunista várias vezes, uma delas, a mais longa, de quatro anos (de Junho de 1979 a Janeiro de 1984), deu origem às suas “Cartas a Olga”.
Em 1976, em reacção à detenção dos membros da The Plastic People of the Universe – banda rock underground de Praga acusada de “perturbação organizada da paz” – resolveu criar, junto com Jan Patocka, Zdenek Mlynar, Jiri Hajek e Pavel Kohout, a Carta 77, um manifesto cívico assinado por 242 pessoas que apesar de proibido e confiscado foi publicado em vários jornais internacionais em Janeiro de 1977.
Muitos dos intelectuais que estiveram por trás do manifesto iriam ter, depois da Revolução de Veludo em 1989, um papel importante nas democracias da República Checa e da Eslováquia. Havel, teria o papel mais importante de todos, ao ser escolhido por unanimidade como primeiro presidente da Checoslováquia democrática, tendo-se demitido em Julho de 1992 por não querer presidir à desagregação da Checoslováquia.
No entanto, candidatou-se a presidente da República Checa. Eleito em 1993, manteve-se até 2003. Sobre o seu maior feito no cargo, afirmou que foi o desmembramento do Pacto de Varsóvia, tendo em atenção a teia complexa em que a infra-estrutura militar se interligava com as instituições nacionais.
No fim, o homem que não queria ser político passou a maior parte da sua vida a sê-lo. Porque uma coisa é, como sempre defendeu, ter consciência cívica e criar mecanismos na sociedade que permitam intervir nas discussões públicas e questionar as autoridades. Outra, é que um dramaturgo, um poeta, um escritor – e ainda por cima tímido – tivesse de secundarizar a sua obra para jogar o jogo da política.
Nutria por Vaclav Klaus, o seu sucessor na presidência, um particular desdém que era mútuo: ontem, Klaus teve a delicadeza que quase nunca tem, e em relação a Havel nunca teve, de lhe chamar “o símbolo da nova era do Estado checo”. Mas Vaclav Havel não era um símbolo, foi apenas um homem que durante o comunismo fez alguma coisa quando muitos outros não fizeram.



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