A ideia está em discussão no México. Para acabar com os divórcios, o casamento passa a ter de ser renovado ao fim de dois anos
O conceito choca com a ideia tradicional de casamento e pode escandalizar os mais conservadores. No México, as estatísticas dizem que um em cada dez casamentos dão em divórcio – o que resulta numa verdadeira dor de cabeça para os magistrados e em pilhas intermináveis de processos pendentes nos tribunais. Para acabar com o problema, a Assembleia Legislativa está a discutir uma mudança ao Código Civil que é, no mínimo, polémica.
A proposta prevê que o casamento passe a ser renovado ao fim de dois anos e só se os dois membros do casal concordarem continuar com o relacionamento no final desse período experimental. A iniciativa partiu dos deputados do Partido da Revolução Democrática (PRD), Leonel Luna e Lizbeth Rosas, que acreditam que o casamento renovável vai reduzir o número de divórcios, além de contribuir para a agilização da Justiça e para o fim dos problemas relacionados com a custódia dos filhos e a disputa de bens. Os deputados acreditam ainda que a medida vai permitir aos casais experimentar a vida a dois e perceber se o casamento tem pernas para andar. “Dois anos é o tempo mínimo para que os membros do casal possam avaliar a sua vida em conjunto. Se os dois renovarem o contrato, significa que há um entendimento, que as regras estão claras e que os dois cônjuges têm a certeza jurídica dos seus direitos e deveres”, explicou à BBC a deputada Lizbeth Rosas, que apoia a mudança e acredita que a introdução da nova lei no Código Civil vai favorecer “relações mais saudáveis e harmoniosas entre os casais e ajudará a restabelecer o tecido social e a estabilidade das famílias”, que serão poupadas ao “trauma” do divórcio e às despesas inerentes ao processo. O PRD diz que tudo o que pretende é que os cônjuges possam separar-se “sem procedimentos demorados que prejudiquem as famílias”.
Além da assinatura de um contrato temporário, a proposta prevê ainda que, aquando do casamento, os noivos se protejam contra um hipotético cenário de divórcio. Para isso, decidem, desde logo, quem ficará com a guarda dos filhos e quanto é que cada um pagará de pensão de alimentos em caso de separação. Contudo, e mesmo que a lei seja aprovada, a renovação não será obrigatória: os casais podem escolher entre o casamento convencional e o renovável.
Quem não acredita nos benefícios e facilidades do casamento a termo são os deputados mais conservadores da Cidade do México, que já deixaram bem claro que nunca aprovarão a lei, sobretudo por ir contra o conceito tradicional de casamento – uma instituição que se quer para toda a vida. A União de Pais de Família (UPF) e outras associações conservadoras também rejeitam a ideia. “Quando soube, pensei que era uma piada de mau gosto”, disse a presidente da UPF. “Esta ideia cria uma cultura descartável em temas importantes para a sociedade. Se os pais têm problemas devem, primeiro que tudo, procurar outras soluções. Imagine-se o impacto emocional que isto teria para um filho: a angústia de pensar, a cada dois anos, se o pai e a mãe irão, ou não, renovar o contrato”, argumenta a responsável.
O que é certo é que as estatísticas, na cidade do México, são pouco animadoras no que diz respeito ao casamento: cinco em cada dez uniões terminam em divórcio. E desde que em 2008 entrou em vigor o Casamento Expresso – uma lei que veio agilizar o processo do divórcio e que permite o fim do casamento em apenas quatro semanas – já aconteceram 60 mil divórcios. Só na capital mexicana.
Em Portugal, o número de divórcios tem vindo a aumentar, ano após ano (ver texto ao lado). Os últimos dados de que o Instituto Nacional de Estatística (INE) dispõe sobre esta matéria são de 2009 e apontam para mais de 26 mil separações no espaço de um ano. “A ideia de casamento para toda a vida já não funciona na sociedade actual”, explica o psiquiatra José Gameiro, especialista em terapia de casal, que recorda que, cada vez mais, a união de facto “é uma realidade”. Por isso, e contrariamente ao que argumentam os deputados mexicanos, o casamento renovável não melhora em nada a vida do casal. “Esse tipo de contrato assemelha-se à união de facto”, diz o sexólogo Bruno Inglês. De resto, sublinham os especialistas, “não há diferenças significativas na qualidade da relação de um casal casado e de um casal que apenas viva junto”.
O que o casamento a termo pode trazer de positivo, acrescenta Bruno Inglês, é proteger os membros do casal de “situações traumáticas” decorrentes de um processo de divórcio longo e litigioso – embora a maioria das separações, actualmente, sejam por mútuo consentimento. “Na nossa sociedade, o divórcio já não tem uma carga tão negativa como há uns anos, existe uma menor dependência económica entre os membros do casal, o processo de divórcio é mais simples e as pessoas saltam mais de relação em relação”, conclui o sexólogo.



Comentários
Acho que esta medida pressupõe a completa eliminação da noção de moralidade. Efectivamente em termos morais pouco mais é que o que se passava na minha aldeia em que havia um macho de cobertura e as fêmeas quando andavam com cio, iam lá para procriar. Se este conceito se chegar a aplicar o egoísmo, que já é elevado vai aumentar e não haverá espírito de sacrifício com receio de não valer a pena por falta de confiança no parceiro. Com que lógica uma mâe ou um pai se sacrifica até ao limite sabendo que tudo pode reverter em seu prejuizo? Com que carinho se´~ao educados os nossos filhos neste tipo de sociedade. Será que queremos mesmo ter uma moral selvagem?
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