Parlamento Europeu aprovou relatório a pedir à Comissão que tome medidas urgentes para reduzir o desperdício em 50% até 2025. Cada um de nós desperdiça 179 quilos/ano
O Parlamento Europeu (PE) pediu ontem à Comissão que tome medidas urgentes para travar o crescimento do desperdício alimentar na Europa pois, se nada for feito, em 2020 terá aumentado 40%. O relatório aprovado pelos eurodeputados sugere medidas destinadas a alcançar a meta de reduzir para metade até 2025 os 89 milhões de toneladas de alimentos que todos os anos se desperdiçam na União Europeia.
No meio de uma grave crise económica, com 79 milhões de cidadãos da UE abaixo do limiar da pobreza (15,8% do total da população) e 16 milhões a receber ajuda alimentar de instituições de beneficência, os eurodeputados consideram que “o desperdício de alimentos representa um problema ambiental e ético e tem custos económicos e sociais”. Todos os anos, metade dos alimentos na Europa dos 27 acaba no lixo.
“Efectivamente, quando se desperdiça um bem alimentar está a cometer-se uma injustiça com aqueles que têm fome”, comenta ao i Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar. “É de uma extrema oportunidade mudar os procedimentos e as políticas a nível agrícola e de alerta das pessoas, até porque a maior parte do desperdício é a nível do consumo doméstico”, acrescenta.
Realmente, 42% dos 89 milhões de toneladas de alimentos deitados ao lixo todos os anos (o equivalente a 179 kg por cada um dos 500 milhões de cidadãos da UE) são desperdiçados no consumo doméstico. “Há exigências de higiene e segurança alimentar totalmente descabidas pelo excesso”, refere Jonet, para quem esses padrões, que “têm mais a ver com a comercialização que com o consumo”, contribuíram para “a banalização do consumo” e “o desperdício de produtos”.
Opinião partilhada por Carlos Gomes, da Mó de Vida, a primeira cooperativa de consumidores de comércio justo em Portugal. “Há medidas da UE exageradas no que diz respeito a prazos de validade e é urgente rever isso”, diz.
Entre as medidas propostas pelos eurodeputados está, por exemplo, a etiquetagem das embalagens com duplo prazo de validade (data-limite de venda e data-limite de consumo) e a modificação do tamanho das embalagens.
Para Carlos Gomes, mais do que o tamanho, “o facto de se poder vender a granel determinado tipo de produtos faz todo o sentido, porque as pessoas podem comprar consoante as suas necessidades”.
Os eurodeputados também mencionam que devem ser avaliadas as “vantagens de oferecer mais alimentos a granel”, além da possibilidade de venda com desconto de produtos que se encontrem perto do prazo de validade ou danificados. Facto que, no entanto, deverá sofrer a oposição das grandes superfícies comerciais.
“A grande distribuição vai resistir à venda a granel, porque isso implicaria ter outro tipo de atendimento, mais personalizado. Além da própria necessidade de consumo diminuir, o que afectaria a dinâmica das grandes cadeias de distribuição que trabalham muito em função de um consumo de desperdício”, conclui Carlos Gomes.



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