A Europa tenta salvar a zona euro recorrendo aos europeístas: Papademos vai liderar um governo de unidade na Grécia, Mario Monti pode vir a fazer o mesmo na Itália
Com a “Grécia numa encruzilhada”, como o próprio Lucas Papademos referiu ontem aos jornalistas, o ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) vai assumir a sua responsabilidade de tentar salvar o seu país da bancarrota e ao mesmo tempo lutar para salvar a moeda única única europeia, da qual o novo primeiro-ministro grego é um defensor, tendo mesmo supervisionado a mudança do dracma para o euro como governador do Banco da Grécia.
Na Itália, o antigo comissário Mario Monti – nomeado na quarta-feira senador vitalício pelo presidente Giorgio Napolitano – é o mais bem posicionado para suceder a Silvio Berlusconi quando este se demitir depois de aprovado o pacote de reformas económicas pelo parlamento. Ontem, o “Financial Times” dizia que Monti “era a escolha dos investidores, dos partidos de oposição italianos e de Napolitano” e Berlusconi está a ser pressionado para que seja também a sua escolha.
O chefe de Estado italiano apressou-se a garantir que a nomeação de Monti como senador vitalício não era um prelúdio para se tornar primeiro-ministro, apenas um “reconhecimento bem merecido e apropriado da sua estatura pessoal, dos seus méritos profissionais e do trabalho levado a cabo na Europa”. E é em parte pelo trabalho levado a cabo como comissário europeu que Monti tem o condão de fazer descansar a Europa e os mercados, recuperando a credibilidade para o cargo que Berlusconi perdeu.
Tanto Papademos, como Monti fizeram grande parte da sua carreira fora dos seus países. Estudaram nos Estados Unidos, estiveram bastante tempo nas instituições europeias – são técnicos, especialistas, mais do que políticos. E na Europa em crise, os políticos servem de alvo para as frustrações e aos tecnocratas pede-se que estejam para lá da política e salvem as economias nacionais – e com elas o euro. Em Portugal, o calendário eleitoral terá evitado que o país se visse obrigado a recorrer a um governo de unidade nacional e, por isso, o tecnocrata europeísta não está ao leme do governo mas no Ministério das Finanças: Vítor Gaspar, que praticamente fez toda a carreira nas instituições europeias.
“É importante para o novo governo da Grécia enviar uma forte mensagem interpartidária de reafirmação aos seus parceiros europeus de que está empenhada em fazer o que for preciso para colocar a sua dívida numa trajectória descendente constante”, dizia ontem a declaração conjunta do presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, e do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, sobre a nomeação de Papademos como primeiro-ministro interino grego.
“A consolidação fiscal deve ir a par com as reformas estruturais necessárias para transformar o potencial de crescimento da Grécia e gerar os empregos que o seu povo necessita tão urgentemente”, acrescenta a declaração.
Ora, Papademos, formado em engenharia e física antes de se doutorar em economia, tem fama de ser um acérrimo defensor da disciplina fiscal. Depois do título de quarta-feira do “Athens News”, de que o barco grego “se afundava sem capitão”, em Bruxelas ontem terão pensado que finalmente havia um capitão ao leme em Atenas.
itália Resolvida a questão grega, os líderes da zona euro aguardam agora que em Roma o presidente Napolitano opte por não convocar eleições e coloque Mario Monti – conhecido como “Super-Mario” depois das lutas que travou com gigantes como a General Electric quando era comissário europeu da Concorrência – à frente do governo. O “Wall Street Journal” falava ontem de que esta era a hipótese mais consistente por agora. No entanto, os parceiros do Pólo da Liberdade de Berlusconi no governo, a Liga do Norte, fizeram saber que não estão interessado num governo provisório. Roberto Maroni, ministro do Interior, afirmou ontem que “a única alternativa é ir para eleições”.



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