Prem Milan
Patrícia de Melo MoreiraSem papas na língua, o professor de bioenergética defende que “a vida sem amor é como uma viagem pelo Atlântico trancado no porão do navio”
Foi companheiro de Lula da Silva na fundação do PT para derrubar a ditadura no Brasil, mas acabou por trocar a política pela bioenergética. Prem Milan está em Portugal para ajudar quem queira a lidar com emoções reprimidas e esteve à conversa com o i sobre assuntos que a maioria das pessoas tranca a sete chaves no corpo. Leia esta entrevista. Mas prepare-se, porque é dura.
Começou como activista político. Como chegou até aqui?
Tinha uma insatisfação muito grande. No começo, quando entrei na faculdade, me juntei ao pessoal de esquerda. No Brasil era a época da ditadura e talvez tenha sido a minha sorte. Fui criado numa família para ser bem-sucedido. Tinha uma boa base, mas era totalmente insatisfeito e não sabia com o quê. Ao entrar em contacto com o pessoal da esquerda, comecei a lutar por uma coisa que era um sonho, um mundo melhor, um mundo mais bonito, mais legal. Isso me moveu em direcção a algo que era uma busca e com o tempo descobri que o problema não era só o mundo, era eu também. Me lembro de uma vez que estava viajando, o mundo estava lindo, o socialismo, as pessoas felizes e daí eu olhei e pensei “E agora? eu não sirvo para isso”. Vi que não era capaz de ser feliz relaxado. Isso me chocou e a partir desse momento – não que eu tenha deixado de ser uma pessoa com uma visão mais social, mais a favor da esquerda, porque eu acho a direita muito horrível – vi que enfrentava tudo, mas não enfrentava o meu lado emocional, a minha carência, a minha falta de amor. Era difícil para mim expressar amor por uma mulher. E aí veio toda a história com a minha mãe.
Defende que muita da neurose na idade adulta vem da infância?
Eu era militante, na época era até da direcção nacional do Partido Trabalhista (PT), andava com o Lula e esses caras e ia para as greves. Mas comecei a olhar e pensei “eu sou uma merda”. É duro. E a partir daí foram aparecendo na minha vida trabalhos emocionais e houve um deles onde eu fui mexer com a minha história de pai e mãe. Isso foi fundamental na minha vida. É uma das coisas mais importantes para qualquer pessoa. Se você quer ser alguém, você tem de resgatar a sua infância. Tem de voltar lá atrás e enxergar com olhos, não daquela criança desesperada que precisa de amor, mas como ser humano, e ver tudo o que lhe faltou e as estratégias que desenvolveu para sobreviver. Porque hoje em dia as pessoas fazem isso nos relacionamentos, se relacionam como se estivessem relacionando com o pai e com a mãe. Por isso é que toda a relação acaba em frustração, principalmente na questão sexual. De certa forma esse projecto do pai e da mãe acaba trazendo toda uma coisa de culpa.
E como é que as pessoas lidam com isso?
As pessoas, em vez de olharem para dentro de si, elas preferem fugir, todo o mundo está fugindo. E todo o mundo acaba caído em antidepressivos ou fazendo um monte de basbaquices. Porque é que as pessoas estão usando tanta droga? São débeis mentais? Não. As pessoas estão muito frustradas e a base da nossa frustração começa com a sexualidade, quer você queira quer não. Não conheci ninguém até hoje que tenha sido trazido pela cegonha no bico numa trouxinha. Todos nós nascemos de uma relação sexual e essa relação sexual se foi amorosa ou não determina muita coisa em nós. Somos muito reprimidos sexualmente e quando falo em repressão no cérebro das pessoas passa logo aquela ideia “Ah, é a libertinagem”. Libertinagem tem hoje, você vai para um shopping e é só propaganda com estímulo sexual. Está ali na tua cara, entendeu? E de uma forma não amorosa – o corpo, a roupa, a superfície – e sem dar importância ao valor energético da pessoa.
Então o que há de errado com a sexualidade das pessoas?
A sexualidade é boa em si. Eu prefiro a sexualidade à ausência. A ausência é o maior dano que existe. As pessoas frustradas são horrorosas, rancorosas, azedas… Agora quando a sexualidade evolui para uma conexão mais profunda de amor – e quando falo de amor não é essa coisa de “ah, eu amo só aquela pessoa, só existe aquela pessoa”, isso é carência, você está namorando o seu pai e a sua mãe. Como a gente passou a infância sem ter eles, projectamos isso nos nossos parceiros, “ele agora vai ser só meu”. Por isso é que os casais se grudam e você se grudar numa pessoa é destruir o amor. É toda aquela visão do desesperado, pessoas que têm medo de tudo. Três, quatro meses depois de começarem a namorar, os casais começam a se “dessensualizar” e a sexualidade diminui muito. Estão muito fechadas, têm muito medo de ficar sozinhas.
O filósofo indiano Krishnamurti diz que temos de aceitar o medo, porque faz parte de nós, e que só assim podemos evoluir. Concorda?
Não sei… O que sei é que o medo é uma emoção natural. Medo, tristeza, raiva, alegria são emoções normais e naturais. O medo tem uma função no ser humano. O medo te alerta para o perigo, faz com que a pessoa esteja mais conectada, mais ligada, e isso é legal. O problema é que o medo é usado desde criança para tudo quanto é para reprimir. Então o medo vira um fantasma e na vida adulta as pessoas têm medo de tudo e nem se apercebem. Cada emoção nos dá reacções físicas que correspondem a um estado corporal. O excesso de medo e o uso do medo é que são ruins. A pessoa corajosa não é aquela que não tem medo, mas sim aquela que apesar do medo faz. Quando você ama alguém, você sente medo e isso te dá toda aquela excitação, o que é que vai acontecer, sabe como é? Quem não tem medo é um psicopata que faz qualquer merda e se sente bem. Como a raiva.
Como ...?
A raiva é uma emoção boa. Se alguém te está pisando, você tem de responder com raiva. Se você quer mudar alguma coisa, só com raiva. Mas as pessoas reprimem muito a raiva e daí ela fica podre e azeda e vem em situações erradas. O sexo tem uma pitada de raiva. O problema é que o ser humano é absolutamente ignorante em relação às suas emoções. A gente se acha evoluído devido à tecnologia, “ai, a Europa e tal”, mas em termos pessoais é horroroso. Me desculpe, mas a Europa é um saco. Trabalhei aqui durante cinco anos e não quero mais trabalhar com gente tão chata e fechada, com gente que se acha porque conseguiu coisas a nível material, mas que a nível emocional é uma tragédia e nem se dá conta. O que é que adianta você conhecer a tecnologia ou ser muito culto, quando não sabe coisa nenhuma a respeito de você? Algo está errado. Por isso é que o planeta caminha a passos largos para a degradação.
Acredita que caminhamos para o fim do mundo?
Se o ser humano não se der conta, e não é a enxergar os outros, porque todo o mundo é muito bom a enxergar os outros, mas nunca se enxerga a si próprio. Você olha para o relacionamento do outro e vê todos os defeitos, você olha para o teu e não enxerga um ovo. Toda essa quantidade de doenças que estão por aí, a grande maioria delas começa num espaço emocional. As pessoas não ouvem o corpo, qualquer emoção está no corpo, as pessoas existem a partir do corpo, tudo começa no corpo. Se você está com raiva, você está de um jeito, se vê no teu olho. Se você está com tesão, está no teu corpo. As pessoas é que não enxergam, têm medo de se olhar. Os casais não se percebem, não se notam, têm de perguntar “E aí, tu está a fim?”, não sabem ler os sinais. É ridículo o estado a que as coisas estão chegando. O automatismo. O amor que sentem é muito pequeno, é uma carência desgraçada. O amor não pode ser essa escravidão, você depender do outro.
O que é então o amor?
O amor é liberdade. E o que é que a maioria das pessoas investe no amor? O resto do seu tempo, a sobra, o lixo? Levanta de manhã, trabalha todo o dia, aguenta um monte de gente chata, almoça, pega um trânsito fodido, vê televisão e aí, no fim da noite, com o resto, aí é o momento do amor? Ai, vai-te catar. Por isso é que a gente vive amores de merda. Pequenos, entende? Tu dá o resto. Essa é a verdade.
Uma das questões que aborda com frequência é a submissão feminina. Como vê o papel da mulher actualmente?
As mulheres são muito submissas e trouxas. Elas têm uma ilusão em relação ao homem. Na sexualidade, todo o mundo aborda a questão a partir do ponto de vista das mulheres – as mulheres têm dificuldade em ter orgasmo, as mulheres isto, as mulheres aquilo – e é como se o problema estivesse todo nelas. Mas na verdade o homem também tem problema em ter orgasmo. Orgasmo não é ejacular, gente! Nenhuma universidade vai falar isso. Agora, se o teu cérebro ainda funciona, o ticoteco pensa um pouquinho, se a ejaculação fosse orgasmo, a ejaculação precoce o que era? Fast-orgasm? A masturbação é orgasmo? A ejaculação significa simplesmente ‘eu não aguento mais, parei por aqui, entreguei os pontos”.
Então os homens não têm orgasmo?
Cerca de 90% dos homens não têm orgasmo, eles têm uma sensação de alívio porque apenas descarregam, e por isso é que as mulheres ficam infelizes e frustradas. Orgasmo é quando você perde a cabeça. Mas o corpo dele não aguenta. Imagina se aqueles dez minutos se estenderem para uma hora, barato, não é? Que coisa incrível, não é gostoso? E as mulheres acham legal que o homem ejacule. A isso se chama debilidade mental. Pensem nestas coisas humanas, estão esperando o quê? Que um doutor inglês descubra? Não descobre não. Só descobre bobagem. Quando você está apaixonado a relação sexual dura muito mais tempo. E isso acontece porque a relação é mais verdadeira e natural, e é por aí. Os homens também não estão satisfeitos, é o ego deles que fica satisfeito. Porque é que as prostitutas berram e fazem todo aquele carnaval que quase parece uma escola de samba? É para afagar o ego do homem. Agora transar que é bom pouca gente faz. Nem sempre vai ser uma relação amorosa, às vezes pode ser meio animal. Imagine quando duas pessoas se encontram e dá aquela tesão, que bom, não desperdice. Nenhuma tesão no mundo devia ser desperdiçada.
Essa mudança está ao alcance das pessoas?
Eu não sou mais do que ninguém. Nasci lá no interior do Rio Grande do Sul, lá onde o Diabo perdeu as botas, tinha tudo para ser o maior babaca do planeta e fiz uma volta do caralho. Vivi coisas muito profundas e intensas, mas botei muita energia nisso, para mim era a questão principal da vida. Rompi com um monte de coisas em função do amor. A maioria das pessoas não quer correr nenhum risco, mas segurança a esse nível é bom para presídio. Se não correr nenhum risco não vai ter nada, vai ficar aí sentado na poltrona vendo o jogo do Benfica, do Sporting, do Porto, do Manchester, do puta que pariu. E no amor as pessoas preferem a terceira ou a quarta divisão. Eu sempre joguei na primeira divisão, nunca caí.
E que tem a dizer àqueles que acreditam no amor eterno?
Ah, isso é pau para boi dormir. Papo furado, sentença judicial. Se eu tivesse que aguentar 30 anos uma pessoa do meu lado, me suicidava. É um negócio. A Igreja criou o casamento para destruir o amor. As pessoas viram propriedade uma da outra. O casamento é das coisas mais hipócritas que existem e quem está não sabe. E não é só o casamento formal, muito casamento informal se está transformando nisso. Às vezes a gente ama alguém e de repente deixa de amar – tu não sabe quanto tempo vai durar. A primeira vez que me separei eu sentia que nunca mais ia amar alguém e foi duro para caramba. Mas depois voltei a amar várias vezes. Acho que uma pessoa para ser completa tem de experimentar alguns amores.
Nota diferença entre os neuróticos brasileiros e os europeus?
Tem uma diferença muito grande entre o brasileiro e o europeu. Com português não tem tanta diferença, mas também o português não é europeu não, porque os caras lá em cima não vos aceitam. O ego dos europeus desenvolveu-se de mais, são uns ego-ambulantes. Já os povos mais novos têm maior contacto com o corpo. Os europeus venderam os sentimentos em troca do conforto. O clima também influencia muito. Imagina um cara na Noruega com aquele tempo, tem de virar duro mesmo. Mas os brasileiros também têm os seus defeitos. A superficialidade lá é muito forte, há muito faz de conta, as pessoas não levam as coisas até ao fim. Já o americano é o babacão do mundo, porque se empanturrou com tudo. Imagina um país que elege o Ronald Reagan presidente! É muita debilidade, me desculpe. O cara era um idiota total. Já a Europa é mais requintada, não bota uns caras tão débil mental. Mas é mais hipócrita, também.



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