Estudo demonstra que os rumores sobre pessoas desonestas fazem o ritmo cardíaco voltar ao normal depois de disparar com as injustiças
Rob Willer é peremptório: “Não, não estamos a ser irónicos”, respondeu ao i. Este psicólogo da universidade da Califórnia em Berkeley, EUA, e outros três colegas, recrutaram nos últimos meses mais de 400 pessoas para testar uma hipótese: desde sempre que as pessoas partilham informação sobre a reputação de terceiros, pelo que os mexericos terão virtudes ocultas que cabe à psicologia do século XXI descortinar. A premissa revelou-se correcta: depois de quatro experiências de grupo, descobriram que algumas bisbilhotices, as que alertam uns membros do grupo para a má conduta de outros, aliviam a ansiedade e frustação sentidas quando se percebe que alguém é sistematicamente egoísta ou aldrabão. Por outro lado, o facto de este tipo de comportamento poder ser alvo de alguma intriga, faz com que as pessoas ajam melhor.
O estudo soma 59 páginas e surge na edição deste mês da revista “Journal of Personality and Social Psychology.” Os investigadores usaram um jogo de confiança online para testar as motivações e efeitos dos mexericos. Numa das experiências puseram 51 alunos universitários a observar um jogo entre dois elementos, em que um violava as regras. O ritmo cardíaco dos observadores estava a ser monitorizado, o que permitiu perceber que o coração acelerava à medida que se iam apercebendo da injustiça. Esta descoberta está em linha com a relação, estabelecida nos anos 1990, entre o descontrolo cardiovascular e a irritação e o stress. Quando surgiu a oportunidade de alertarem um novo jogador, os participantes que optaram pelo papel denunciador viram o seu ritmo cardíaco regressar a valores mais normais.
Noutra experiência, recrutaram 300 pessoas na comunidade de jogos online Craiglist para uma lotaria, em que cada aposta aumentava a possibilidade de ganhar um prémio final de 50 dólares e os jogadores tinham de partilhar pontos e dinheiro para ter direito a mais apostas. Durante o jogo, alguns participantes foram informados de que os observadores iriam poder alertar algumas pessoas durante o intervalo de potenciais situações de batota. Segundo os autores, isto fez com que os participantes que tinham sido classificados como menos altruístas, num questionário prévio, tivessem um comportamento mais generoso perante a hipótese de serem objecto de bisbilhotices de cariz negativo.
A conclusão é que sim, os mexericos contribuem para a ordem social, nas palavras dos autores, e que esta boa má--língua – quando assenta em informação fidedigna e serve de alerta – deve ser separada de outro tipo de intrigas, por exemplo as de estilo voyeurista de Kim Kardashian, a socialite norte-americana perita em espalhar boatos sobre celebridades. “Descobrimos que uma categoria de rumores a que chamamos ‘mexericos pró-sociais’ têm efeitos positivos nos grupos. Quando uma pessoa partilha informação sobre elementos que são egoístas ou desonestos, está a alertar os outros para evitar essas pessoas. Assim, os abusos no grupo acabam por ser controlados”, explica Willer.



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