Max Stahl
António Pedro SantosAlto, magro e sempre de boné com a bandeira de Timor-Leste na cabeça. É assim que todos conhecem o jornalista que filmou há 20 anos o massacre de Santa Cruz. No cemitério onde tudo aconteceu, conta cada passo que deu
Quando os indonésios começaram a balear a procissão de timorenses, em Díli, Max estava dentro do cemitério. Filmou dezenas de jovens a serem empurrados, corpos ensanguentados, vozes a rezar o Pai Nosso em português. As imagens correram mundo e foram o primeiro passo para Timor-Leste se tornar um país livre.
As imagens de 12 de Novembro de 1991 estão sempre dentro de si?
Claro, nunca se esquece uma coisa dessas. Não somos portugueses, ingleses ou timorenses por ter nascido nesses países, é com a nossa casa que nos identificamos. Vivi experiências muito fortes aqui, sou também um pouco timorense. O que vivi neste país não posso esquecer, da mesma forma que não posso esquecer a minha mãe. É impossível, é uma coisa que fica. Não só os momentos do cemitério, mas tudo o que veio a seguir.
Acompanhou toda a procissão ou esteve só no cemitério?
Segui a manifestação desde o início até ao fim. Segui-os desde a igreja de Motael até ao cemitério. Na altura não vivia cá. Dormira na casa de amigos. Era impossível viver aqui e mesmo para um estrangeiro era muito difícil vir cá fazer uma visita.
Estava em Díli há quantos dias?
Entrei no fim do Agosto. Saí para renovar o visto na segunda semana de Outubro e voltei duas semanas depois. Nunca podia ficar no mesmo lugar muitos dias senão os indonésios começavam a perguntar o que andava a fazer.
Quando a procissão se aproxima do cemitério já estava lá dentro.
Sim, queria fazer as imagens da procissão a entrar no cemitério. Mas as coisas começaram a acontecer lá fora e isso eu não vi. Sei que os soldados indonésios chegaram e cercaram os manifestantes. Não havia por onde fugir a não ser para dentro do cemitério. E começaram a disparar. Só dispararam lá fora. Aqui dentro aconteceu o segundo massacre: esfaquearam as pessoas com baionetas. Não havia feridos de tiros, só de facadas. Havia tiros lá fora e não houve tiros de resposta. Os timorenses não tinham armas nenhumas. Eles dispararam para todo o lado. Esvaziaram os carregadores. Foi uma coisa que ainda demorou algum tempo. Lembro-me bem do som dos tiros. Acho que a intenção dos indonésios era forçá-los a entrar aqui e cercá-los.
Sabe quantas pessoas morreram no massacre de Santa Cruz?
É difícil saber. Sabemos que 80 e tal famílias aqui em Díli perderam familiares e ainda identificámos 16 em Hera. Mas um dos militares indonésios disse-me que morreram mais de 400 pessoas. Eles mataram no cemitério e depois no hospital para onde as vítimas eram levadas. Envenenaram-nos com formol. Aleatoriamente. Davam-lhes dois, três comprimidos e as pessoas caíam desmaiadas, mortas.
No cemitério esteve sempre a filmar?
A ideia da manifestação era que iam rezar pelo jovem Sebastião, que tinha morrido a 28 de Outubro. Não se percebe para quem era a manifestação, antes disso nunca tinha havido nada assim. Ali só estavam indonésios e eles estavam com cartazes a pedir por Timor livre. Estavam a pedir a quem? Eram cerca de 3 mil pessoas na manifestação à vista de toda a gente. Para os indonésios foi uma provocação. Não podiam acreditar que os jovens os podiam desafiar desta maneira. No vídeo podem ver-se algumas imagens dos indonésios de boca aberta.
Não temeu que o matassem também?
Sim, mas sabe que para fazer este trabalho já tinha tido uma preparação mental. Tinha visto todos os fantasmas e isso ajudou-me com a realidade. Mentalmente é uma coisa difícil. Imaginar que não há perigo de morte é uma estupidez.
Mas nunca se escondeu?
Estava há três meses a fazer um filme sobre o que se passava em Timor e sabia que se filmasse o que estava a acontecer podia mudar tudo. Como profissional, tinha de fazer todos os possíveis por conseguir aquelas imagens. Estava enfurecido, com raiva ao que aqueles tipos estavam a fazer.
Não o viram? Não tentaram apanhá-lo?
Ah, claro. Apanharam-me aqui dentro desta capela, mas eu já tinha escondido as cassetes num fosso que havia a poucos metros da entrada. A seguir levaram-me para um interrogatório que demorou 10, 11 horas.
O que aconteceu nesse interrogatório?
Não me podiam fazer grande coisa. Havia o problema da língua e a questão diplomática. Afinal era inglês e estava ali legalmente, como turista. Tiveram de chamar um oficial superior para me interrogar. Nessa altura pude apagar algumas imagens que gravara. Imagens que filmei aqui nesta capela. Quando eles me apanharam continuei a filmar.
Nunca ninguém viu essas imagens?
Só eu. Os indonésios ainda viram a última imagem porque, quando me apanharam, ainda não destruíra tudo. Isto quase, quase causou um problema muito grande.
E a máquina?
Levei-a e queriam ficar com ela. Ainda hoje a tenho. Estava aqui na capela, cheia de pessoas, crianças feridas, a chorar, a gritar e eles entraram aqui porque me queriam apanhar. Se queriam as imagens tinham de me matar. Pedir, ameaçar não dava. Um tipo pegou na câmara, eu agarrei-lhe na mão e disse: “Dá-me essa câmara.” E tirei-lhe a mão dedo a dedo da minha câmara. [Risos.] O tipo ficou completamente chocado, quase lhe parti os dedos.
Quando veio buscar as cassetes?
Depois das dez da noite. Já estava tudo mais calmo.
Veio sozinho?
Sim, ninguém quis vir comigo. Eu desconfiava que os indonésios não viriam aqui à noite. Já tinha passado aqui uma noite com jovens da resistência que me disseram que dormiam aqui porque os indonésios tinham medo de entrar neste cemitério à noite.
Teve medo que as cassetes já não estivessem onde as tinha deixado?
Claro, mas não podia dizer a ninguém que as viesse buscar.
Como é que as cassetes saíram de Timor?
Uma foi com um padre das Falintil para o Japão e outra com uma holandesa para a Holanda. Quando saí daqui fui para Bali [Indonésia] e mandei as imagens para a Tailândia.
Sente que é o homem que começou a mudar a história de Timor?
Sim, mas com a ajuda de muita gente. Foram imagens que se transformaram numa arma forte contra os indonésios. Claro que foi um sacrifício dos jovens timorenses, mas foi um sacrifício que deu a oportunidade de mostrar ao mundo o que se passava em Timor-Leste. A partir daí os países começaram a usar essas imagens. Fiz vários filmes com aquelas cenas e eles ficaram desesperados, porque cada vez que se falava da Indonésia muitos países mostravam aquele filme.
É um herói para os timorenses?
Às vezes tratam-me muito bem. Em Portugal também me trataram bem. Quando lá fui, a convite de uma universidade do Porto, fiquei impressionado com o interesse que Portugal tinha por Timor. As pessoas sentiram-se próximas, com as imagens dos timorenses a rezarem em português dentro desta capela. Lembro-me de andar pelas ruas do Porto e as pessoas saírem das lojas para me cumprimentar. Até me ofereceram garrafas de vinho do Porto. [Gargalhada.] Tinha estado muitos anos a lutar por causas perdidas como a de Timor-Leste e nunca me tinham tratado assim, como um herói.
Ganhou muito dinheiro com aquelas imagens?
Não, a Yorkshire, a empresa inglesa de televisão, é que ganhou. Não sei se é sempre assim, mas comigo não partilharam nada.
Mas recebeu a recompensa moral de ter mudado a história de um país…
Não penso muito no que fiz. É só uma parte do caminho que comecei no Kosovo, em El Salvador, na Chechénia, em muitos outros lugares onde podia ter morrido. Como se sentiria se à sua volta só visse pessoas a morrer? A vida é igual para todos, ricos ou pobres, inteligentes ou estúpidos. O valor da vida é igual. Em Timor, a dignidade demonstrada pelo povo e a liderança da resistência, os jovens, a Igreja, principalmente, tudo me deixou muito impressionado e emocionado. No fim foram os valores deles que venceram, não foram as espingardas e as balas. Os indonésios tiveram dificuldade em compreender como ganharam tantas batalhas mas perderam a guerra. Por isso é que queimaram tudo em 1999, por frustração, por raiva, por falta de estratégia, por estupidez.
Quando veio de vez para Timor?
Em 2003 abri aqui o arquivo visual. E desde então vivo em Díli com a minha família.
Na crise de 2006 veio com a câmara de filmar para a rua?
Sim, e uma bala passou mesmo por cima de mim. Eu só pensava que era a maneira mais estúpida de morrer. Aquela gente nem sabia o que estava a fazer. Era uma estupidez morrer assim.



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