Na base russa de Vostok, a parede regista as profundidades que foram sendo atingidas
reutersEquipa de investigadores conseguiu atingir lago subterrâneo intacto há 14 milhões de anos. Mais de 20 anos para perfurar 3 600 metros de gelo
Na base russa de Vostok, a parede regista as profundidades que foram sendo atingidas
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Há quem diga que o Lago Vostok é a Atlântida cujo mito Platão ajudou a difundir e que, diz quem defende a teoria, devido ao movimento das placas tectónicas do planeta Terra foi parar ao Pólo Sul. Se o Vostok vai acabar com o lendário mito do continente perdido não se sabe, mas que o lago já se tornou mítico é um facto. Depois de duas décadas de ensaios na Antárctida, uma equipa de investigadores russos conseguiu o que nunca ninguém havia conseguido: perfurar os mais de 3 600 metros de gelo e chegar a um dos seus lagos subterrâneos.
“Isto enche a minha alma de alegria”, dizia esta semana Valery Lukin, do Instituto de Pesquisa da Rússia para o Árctico e a Antárctida, supervisor do projecto. “Isto vai dar-nos a possibilidade de avaliar biologicamente a evolução de organismos vivos, porque estes organismos passaram muito tempo sem contacto com a atmosfera e sem luz solar”, explicou à BBC.
A investigação que levou anos a planear e a executar não acaba aqui. Aliás, o verdadeiro trabalho começa agora, sobretudo quando os olhos da comunidade científica, de curiosos e de entusiastas de todo o mundo estão postos na equipa – e numa altura em que se recuperam muitas das teorias sobre a Antárctida que se foram criando ao longo da história sobre esta caixa de Pandora natural (ver caixa).
Baptizado de Vostok, em honra da estação científica soviética ali montada, em 1956, para levar a cabo o projecto, só nos anos 70 é que a ajuda de um radar permitiu iniciar a sua exploração. O lago está situado no leste da Antárctida, uma das zonas mais isoladas do planeta, onde os termómetros da equipa registaram a mais baixa temperatura de que há memória na Terra: -89º C no dia 21 de Julho de 1983.
Com uma área de 10 mil quilómetros quadrados e uma profundidade de 800 metros, o lago é semelhante ao lago Baical (Sibéria) e ao lago Ontário (América do Norte). Mas as semelhanças acabam nas dimensões, ou não fosse este um lago situado sob uma grossa camada de gelo.
Como este existem outros na região, mas nenhum que estivesse intacto há, pelo menos, 14 milhões de anos. Numa altura em que esta e outras equipas de cientistas que investigam a Antárctida já descobriram mais de 300 organismos aquáticos, a última descoberta abre caminho aos astrobiólogos, que estudam as origens e a distribuição de vida no Universo. Isto porque as condições em lagos como o Vostok são semelhantes às da Europa (lua de Júpiter), o Enceladus (satélite de Saturno) e a Lua. Este é só o começo, só em Dezembro, data marcada para extracção de amostras do Vostok, é que haverá continuação.


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