Poderá o futuro do Egipto como sociedade de enormes contrastes ser posto em causa pelos islamitas?
Asmaa Waguih/ReutersÉ o terceiro país a registar uma vitória dos islamitas nas urnas nos últimos tempos, depois de Tunísia e Marrocos. O país mais populoso do Médio Oriente prepara-se para um parlamento onde até os salafistas terão lugar
Poderá o futuro do Egipto como sociedade de enormes contrastes ser posto em causa pelos islamitas?
Asmaa Waguih/Reuters
O resultado surpreendeu pela sua profundidade. Mohamed El Baradei, antigo chefe da Agência Internacional de Energia Atómica e candidato às eleições presidenciais do próximo ano, não se conteve nas palavras: “Os liberais foram dizimados”, disse o político egípcio à agência Associated Press, descrevendo o desempenho dos partidos seculares na primeira fase das eleições parlamentares. A análise é correcta e o país está a tentar digerir a realidade do novo Egipto: um parlamento que deverá ter 60% de islamitas.
O processo eleitoral ainda não terminou, mas a votação já teve lugar no Cairo e na costa do mar Vermelho, zonas consideradas mais liberais do que o Egipto rural. E é difícil imaginar que haja grandes mudanças nos resultados quando as restantes governarias votarem, até Janeiro.
Era de esperar que o Partido da Liberdade e da Justiça (PLJ), o braço político da Irmandade Muçulmana, tivesse um resultado significativo. Há muito tempo que o país rural é dos Irmãos. Perseguida pelo regime de Hosni Mubarak, a Irmandade Muçulmana cimentou a sua popularidade junto dos egípcios com uma rede de hospitais e o fornecimento de alimentos a baixo preço, criando uma espécie de estado paralelo para colmatar as lacunas dos serviços governamentais. A primeira volta das eleições deu ao PLJ 40% dos votos expressos nas urnas.
O receio que agora assola os secularistas egípcios vem de uma corrente mais conservadora do islão. Os salafistas, agrupados no partido Al-Nour, obtiveram entre 25% e 30% dos votos. Conservadores que têm o objectivo de viver como os primeiros seguidores do profeta Maomé, os salafistas irromperam livremente pelas ruas do Cairo no pós-revolução, protestando na Praça Tahrir, empunhando as suas bandeiras negras e gritando palavras de ordem a favor da aplicação da sharia, a lei religiosa inspirada no Corão. Irromperam no quotidiano egípcio depois de décadas de discrição. Pouca gente esperava que viessem a ter mais do que uma mera representação marginal no espectro político do Egipto.
No seu conjunto, a Irmandade Muçulmana e os salafistas do Al-Nour terão cerca de 60% dos deputados no novo parlamento, segundo as estimativas da Alta Comissão para as Eleições. A direcção da Irmandade já afirmou que não vai haver nenhum acordo com os salafistas para formar um governo de maioria parlamentar, e no Cairo fala-se de negociações discretas entre a Irmandade Muçulmana e alguns dos partidos liberais.
fumar é pecado Na capital egípcia, os salafistas não são difíceis de encontrar: são os que acreditam que fumar é pecado, que a música é influência do diabo, que tocar em mulheres que não fazem parte da família é impuro. O papel que terão no futuro ainda está por definir.
“Politicamente, os salafistas têm cerca de 70 anos de atraso relativamente à Irmandade Muçulmana”, explicou ao telefone Nael Shama, um analista político sedeado no Cairo. “Nunca passaram de movimento para partido político, estão ainda a meio.”
A dinâmica do parlamento e a maneira como os islamitas virão a influenciar a nova Constituição depende da forma como os salafistas jogarem o jogo político. Se os deputados do partido Al-Nour começarem a sugerir leis de conduta social mais conservadoras, os deputados da Irmandade Muçulmana terão de decidir entre medidas de moralização, para apaziguar as bases do partido, ou seguir por uma linha mais conciliadora com os partidos liberais, evitando por agora tocar em assuntos polémicos como o uso do véu islâmico ou a proibição do consumo de álcool.
No Egipto sempre houve pressões para um maior conservadorismo social: o número de mulheres que utilizam o hijab (véu a tapar o cabelo) tem aumentado significativamente nos últimos 20 anos, com o regresso de milhares de trabalhadores emigrados nos países do golfo Pérsico. No entanto, o país depende muito do turismo, significando isso que a proibição dos biquínis na praia e do álcool nos bares e restaurantes teria um impacto profundo em termos económicos.
É normal que a Irmandade Muçulmana adopte uma atitude mais pragmática para a sua governação. Os egípcios estão preocupados com a economia e com o emprego. E já provaram que terão pouca paciência para um governo que não resolva os problemas essenciais. Porém, a inexperiência política dos salafistas do Al-Nour poderá torná-los imprevisíveis e erráticos.
futuro regime islamita? Estará o Egipto condenado a um longo período sob os comandos de um regime islamita? Não necessariamente. “É normal que os partidos islamitas abandonem os seus slogans mais fantasiosos e se tornem mais práticos quando chegam ao poder. Além disso, as primeiras eleições são sempre as mais complicadas”, opina Nael Shama. “Não se pode pôr de parte um cenário de dissolução da assembleia e convocação de novas eleições quando a Constituição estiver escrita, dentro de um ano e, nesse caso, os resultados podem ser muito diferentes.”
A derrota nas eleições forçará os partidos liberais a uma reflexão. Acusados por muitos egípcios de elitistas e condescendentes na forma como encararam a campanha eleitoral, os políticos liberais e seculares terão agora de se focar menos nos debates de ideias televisivos e apostar mais no trabalho político de rua, algo que a Irmandade Muçulmana aperfeiçoa há décadas, com os resultados que estão à vista.


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