O Egipto está de luto. Assim o assinalam as primeiras páginas dos jornais do país que fizeram ontem dramáticas alusões ao “massacre de Port Said”, relacionando-o com a situação política do país. O governo egípcio decretou ontem três dias de luto nacional, depois da onda de confrontos entre os adeptos de futebol do Al-Masry e do Al-Ahly de que resultaram 74 mortos.
No meio de manifestações na capital do país, a Federação Egípcia de Futebol anunciou ontem a sua decisão de suspender a liga de futebol por tempo indeterminado. Mais tarde, os manifestantes marcharam desde a sede do clube Al-Ahly até ao Ministério do Interior. Acusando a polícia de incompetência, a multidão aproveitou a confusão para cortar o trânsito na praça Tahrir e bloquear o acesso à sede da radiotelevisão egípcia.
Perante a tragédia, vários adeptos e políticos apontaram responsabilidades ao Conselho Militar – no poder desde a queda de Hosni Mubarak. Por seu lado, o deputado da Irmandade Muçulmana, Essam al-Erian, acusou os partidários do ex-presidente do Egipto de serem responsáveis pelos incidentes no estádio. “Os acontecimentos de Port Said foram planeados e são uma mensagem dos partidários do antigo regime”, disse o deputado em comunicado. Já o líder da câmara baixa do parlamento, Saad al-Katatni, do Partido Liberdade e Justiça, afirmou que os confrontos foram “trabalho do diabo” e que a revolução egípcia estava “em perigo”.
O ministro egípcio do Interior, Mohammed Ibrahim, decidiu ontem demitir o director de segurança de Port Said. No mesmo dia, e durante uma sessão extraordinária no parlamento egípcio que abriu com um minuto de silêncio, o primeiro-ministro do país, Kamal al-Ganzouri, confirmou a demissão do governador de Port Said. Na mesma sessão, o chefe de governo egípcio anunciou “o afastamento do presidente e dos membros da direcção da federação egípcia de futebol”.
sem jogadores e treinador As consequências da tragédia em Port Said também afectaram directamente a equipa mais popular do Egipto. Ontem três jogadores do Al-Ahly, que são também internacionais egípcios, Mohamed Aboutrika, Emad Moteab e Mohamed Barakat, anunciaram o fim das suas carreiras. Aboutrika, que se mostrou particularmente afectado pela violência, foi mais longe: “Não há mais futebol para mim depois do que aconteceu”, disse em entrevista ao canal oficial do Al-Ahly. “As pessoas morrem e ninguém faz nada. As vidas destas pessoas valem assim tão pouco? (...) Fomos abandonados pela polícia, não tínhamos protecção nenhuma. Estava no balneário quando vi um adepto morrer à minha frente”.
Entretanto, Manuel José, o treinador português da equipa egípcia, pediu ao Al-Ahly que rescinda o seu contrato para poder regressar a Portugal. “José passou por uma má situação psicológica devido aos acontecimentos em Port Said”, referiu uma fonte do clube, citada pelo jornal inglês “ The Guardian”.



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